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Guerra de números nos mercados da música

Para quem distribui, os valores pagos são sinal de crescimento. Para quem edita, ficam aquém do que seria justo. Mesmo com o mercado de streaming a aumentar e as contas da indústria da música a recuperar, o panorama está longe de ser sereno

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Apesar dos valores que indicam o regresso a uma evolução em crescimento do negócio da música gravada, o panorama do relacionamento entre quem edita música e quem a difunde não parece ser ainda um mar de tranquilidades. Há poucos dias Robert Kyncl, do YouTube, assinalava o pagamento de um milhar de milhão de dólares à indústria discográfica, assinalando o progresso no desvio para operadores online das receitas de publicidade que outrora eram destinadas em volume mais expressivo à televisão, rádio e imprensa em papel. O mesmo valor, que ali era sublinhado pela sua grande dimensão, foi todavia criticado pouco depois pela Federação Internacional da Indústria Fonográfica, que clamou ser injusta essa quantia e que se deve a uma discrepância que se pode verificar sob o atual quadro legal.

A resposta da indústria discográfica observava que, com o seu número impressionante de utilizadores à escala mundial, o YouTube não estava a pagar pela utilização de música senão pouco mais do que um dólar por pessoa... por ano. E apontava como termo de comparação serviços de streaming como o Spotify, Apple ou Deezer, que somaram ganhos na ordem dos dois mil milhões de dólares, mas pagaram per-capita um valor de 18 dólares.

Pelo lado do YouTube a resposta está numa agenda de alterações de investimento publicitário que valorize ainda mais o online... E a menos que haja uma alteração legal do que são as percentagens em jogo, não sairemos desta guerra de números.

As projeções feitas apontam para que 2016 seja o ano em que o consumo de música por streaming vai ultrapassar o da compra de downloads. Os CD são já uma espécie a caminho da espiral de extinção, tendo o mercado mostrado este ano quais são os espaços em que resistirá à machadada final: as edições em caixas, como aquelas que juntaram CD, DVD, Blu-ray, livros e outros mais extras, em torno de obras como as dos Pink Floyd ou David Bowie, entre muitos mais. E quando uma caixa com mais de 200 CD de gravações de obras de Mozart é, para a Billboard, o “disco” mais vendido do ano neste suporte, está claro que estamos em território de nicho e não de vendas em massa. Já o vinil, mesmo a crescer (e no Reino Unido obteve valores consideráveis), não nos deve deixar de fazer notar que os valores de lucros se devem não apenas a um aumento das vendas mas também aos preços inflacionados praticados. E mais do que nunca 2016 mostrou como este formato se transformou numa peça de luxo para uma moda melómana que, não tenhamos dúvidas, cederá um destes dias a sua vez a outra mania qualquer.

Não tenhamos dúvidas que é no digital, e sobretudo no streaming, que o mercado vai apostar. E não é por acaso que este ano os discos apenas disponíveis nestas plataformas passaram a ser também elegíveis para os Grammys. Segundo valores apresentados há alguns meses pela Pitchfork, o Spotify tinha em meados deste ano cerca de 40 milhões de subscritores pagos. Seguia-se a Apple Music com 17 milhões, o Tidal com 4,2 milhões, o Pandora com 4 milhões e o Deezer com 3,8 milhões. As plataformas de escuta gratuita têm valores mais expressivos. O YouTube lidera aí, com um milhar de milões de utilizadores. E seguem-se o SoundCloud com 175 milhões, o Spotify (na sua expressão à borla) com 89 milhões e o Pandora com 80 milhões. Um dos desafios da indústria é o de tentar fazer subir os valores do primeiro grupo, descendo os do segundo... É uma das incógnitas lançadas para 2017, sendo certo dizer que se ultrapassou já a curva descendente que, depois do ano 2000, levou esta indústria a sofrer uma crise profunda.

Os números, mesmo promissores, não são contudo “favas contadas”. Ainda esta semana o Spotify recuou face à esperada compra do SoundCloud, apesar de se saber que as negociações iam já numa fase avançada... É mais um dado a favor da construção de um cenário agitado para um 2017, que promete efervescência no negócio da música gravada.

  • À espera de “Trainspotting”...

    Opinião

    O filme que marcou uma geração vai ter uma continuação vinte anos depois... Chega em 2017, com os mesmos atores, o mesmo realizador... Como aperitivo servem-se, para já, memórias do filme original, na forma de uma edição em vinil cor de laranja de uma banda sonora que fez história em 1996

  • Gosta de música? Então não deixe de ir ao cinema...

    Opinião

    O documentário sobre os Stooges que esta semana chega aos ecrãs portugueses mostra como Jim Jarmusch seduziu o grande ecrã com a presença de Iggy Pop, fazendo de “Gimmie Danger” mais um importante episódio na história do relacionamento do cinema com a música

  • Kanye West 2020? Não me parece nada uma boa ideia...

    Opinião

    O músico já o tinha sugerido. E desde que se sabe o resultado desta eleição, não falta quem clame que Kanye West seja candidato à Casa Branca em 2020. Por muito que de novo tenha havido neste ciclo eleitoral que deu vitória a Trump, não é por aí que o futuro deve seguir