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Jorge Palma no CCB, visto por André Tentugal

André Tentugal

O que nasce primeiro, a música ou a imagem?

Os “filmes” de Andre Tentugal para Jorge Palma ou a banda-sonora criada por Catherine Morisseau são belos exemplos da forma como música e imagem poder viver em perfeita harmonia

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

A noite era de relativa cerimónia: afinal, qualquer concerto no Centro Cultural de Belém, com as suas cadeiras confortáveis e ambiente solene, nos remete para essa ideia. Porém, mal Jorge Palma, feliz e saltitante nos seus 66 anos, entrou em palco para se sentar ao piano, o público percebeu que a segunda noite desta breve digressão de celebração dos 25 anos do álbum seria marcada por uma bem-vinda informalidade. Concentrado e entusiasmado, o veterano da canção em português contou histórias, desvendou surpresas e manteve do seu lado os fãs embevecidos e atentos. Poderíamos dizer que o conseguiu com a ajuda solitária da sua voz e do seu piano, mas não é verdade: apesar de essas terem sido as grandes estrelas do serão, as belíssimas imagens que correram no fundo do palco – entre fotos antigas do músico e pormenores do que se estava a passar naquele momento – ajudaram a tornar ainda mais compensadora a viagem pela carreira de Jorge Palma.

“Escondido” nas laterais do palco, coordenando a sua equipa de captação de imagem, para aquilo que deverá ser, também, um DVD ao vivo, André Tentugal teve direito a merecida referência por parte do homem de “Estrela do Mar”. Dedicado à realização desde que, no passado verão, colocou em Paredes de Coura a sua banda, os We Trust, em pousio, o artista do Porto continua a fazer a diferença atrás da câmara, tendo realizado recentemente vídeos para Gisela João («Labirinto ou Não Foi Nada») e António Zambujo («João e Maria»). Em 2017, deverão chegar às lojas documentários sobre GNR no Campo Pequeno ou Arnaldo Antunes no São Luiz, ambos com a sua cobiçada assinatura.

Poucos dias depois, fui ao cinema São Jorge, também em Lisboa, assistir a alguns filmes do Muvi, festival internacional de música no cinema, que por estes dias chega ao fim (esta noite, é possível assistir às fitas premiadas, na mesma sala da Avenida da Liberdade). E foram verdadeiramente emocionantes os 15 minutos em que Catherine Morisseau desvendou a sua criação: uma peça original, escrita e apresentada ao piano, para musicar O Grande Monteleone, a premiada curta de João Leitão. A sensibilidade com que a pianista e compositora acompanhou, perante a plateia suspensa dos seus dedos, as imagens – belas, também de uma grande sensibilidade – do filme projetado em simultâneo só teve paralelo na modéstia com que, logo a seguir, aceitou os aplausos do público e do realizador, naturalmente emocionado com a «descendência» do seu trabalho.

«Deixar respirar» foi, se a memória não me atraiçoa, a principal preocupação que Catherine Morisseau disse ter ao criar a banda-sonora d’ O Grande Monteleone. E, assim, não só conseguiu aquilo a que se propôs, como ainda ofereceu ao filme (que pode ser visto aqui, ainda com a música original de Marco Franco) um novo e comovente fôlego.