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Quando a música é maior do que nós

Já ouvimos tudo? Não, nunca ouviremos tudo. E é também por isso que a música deve ser escutada e apreciada sem cinismo ou sobranceria. A nossa primeira vez pode ser sempre amanhã

Isto anda tudo ligado. Há poucas semanas escrevi sobre o novo álbum de Norberto Lobo para o Expresso e, canção puxa canção, fui parar outra vez ao mestre do fingerstyle, John Fahey. Não que Norberto Lobo ande, por estes dias, nos rendilhados de Mudar de Bina ou Pata Lenta (o Lobo tem carregado nos pedais); talvez tenha sido, simplesmente, saudade.

Em 2000 tomei contacto, pela primeira vez, com a música de John Fahey, sobre quem já tinha lido os maiores elogios. Hitomi, que viria a ser o último disco do americano editado em vida, não foi o ponto de partida ideal: é um disco experimental, em que a guitarra não flui.

De maneira que, sim senhor, respeitinho e tal, mas não terá sido antes da eclosão do que se convencionou denominar freak folk (aí no primeiro semestre de 2004) que lá voltei, então ajudado por um portal maravilhoso chamado Soulseek (não digam a ninguém). "Piquei" uma, "piquei" duas e lá fui eu, empertigado, à Amazon.

Foi uma altura excelente para descobrir música do outro mundo debaixo de cada pedra. Num repente, Devendra Banhart, Gary Higgins, Vashti Bunyan, Espers, passado e presente, misturaram-se num sótão nas cercanias da lisboeta Morais Soares e mudariam consideravelmente o posicionamento das minhas antenas.

Fahey, no meio de tanta novidade e descoberta, ficaria por perto mas sem direito a prime time. Quando Norberto Lobo, um dos "novos" grandes, entrou em cena, então aí é que foi. Puxou-se o lustro a Carlos Paredes (quantas vezes terei ouvido "Divertimento"?), voltou-se a Fahey, cirurgicamente entre 1959 e 1977 - que bem que me trato.

E depois fui beber a outro lado porque não devemos abusar da paciência dos génios. Até agora: Norberto Lobo mandou-me outra vez dar uma volta à América e, caramba, se isto* não é do mais belo que vão ouvir hoje, então nada mais tenho para vós.

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