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Meg Baird

Ir a um concerto pode ser um ato de protesto?

Sabemos ser um público bonito quando queremos. Sem smartphones, conversas paralelas ou distrações, os concertos de William Tyler, Meg Baird ou Elza Soares foram manifestos contra a indiferença

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Na semana passada, falei aqui da expectativa com que aguardava o concerto de William Tyler na Casa Independente. Na quinta-feira à noite, juntei-me à pequena multidão que encheu a sala do Intendente para um concerto com tudo para ficar na memória dos presentes. Da presença, discreta mas cativante, do músico de Nashville, ao facto de ter vindo a Portugal na “altura certa” (com o último disco, o belíssimo Modern Country, ainda fresco), passando pelo ambiente que, num serão chuvoso, ali se gerou, tudo concorreu para uma certa magia e sensação de conforto que, numa altura em que a oferta de espetáculos é pouco menos do que avassaladora, se tornam tão raras como gratificantes.

Salientando sempre ser “uma honra” tocar num palco como aquele, o guitarrista provou ser verdade aquilo que intuímos ao escutar os seus discos: não há palavras, mas há histórias, há pessoas e há muito mundo em canções como “Highway Anxiety” ou “Portrait of Sarah”. Com o céu a desabar lá fora, Tyler referiu a certa altura: “É ótimo passar uma noite de chuva com um público tão simpático, criando a nossa própria realidade alternativa”. A sugestão ficou no ar, sendo retomada uns temas à frente, com assertividade e emoção: “Tenho andado em digressão e não sei bem o que vou encontrar quando regressar a casa. Mas acredito realmente que o simples facto de estarmos aqui reunidos, a ouvir música num sítio destes, acaba por ser, por si só, um ato de protesto”. Exemplarmente atento, o público aplaudiu e, se for como eu, terá ficado a pensar no assunto.

Dias mais tarde, passei pela Sociedade de Geografia, a sala que se esconde mesmo ao lado do Coliseu de Lisboa, abrindo portas ao público por ocasião do Vodafone Mexefest. Mais uma vez chovia e mais uma vez a artista que ocupava aquele palco, a norte-americana Meg Baird, não foi indiferente à bolha de evasão que ali se formou. “Obrigada por ouvirem, significa muito. Penso que é uma das formas mais simpáticas que temos de cuidar uns dos outros e fico-vos muito grata”, disse a cantautora, feliz por se apresentar naquela que certeiramente descreveu como “uma sala de sonho”.

O périplo pelos concertos emocionantes não podia ficar completo sem uma referência a Elza Soares, a super veterana da música brasileira que, na mesma noite, ou seja, no sábado, assomou no palco nobre da cidade. Nascida há coisa de 80 anos no Rio de Janeiro, Elza viu e viveu mais coisas do que a maioria de nós poderá sonhar – e por sonhar quero aqui dizer “pesadelar”. Depois de sucessivas tragédias pessoais, a mulher do fim do mundo, para roubar o título do seu último disco, juntou-se a um grupo de jovens músicos “paulistanos”, como se lhes referiu várias vezes, e fez um disco de som contemporâneo. Não importa, porém, o embrulho em que nos chegam canções como “Vila Matilde” ou “Benedita”: o que importa é Elza, ali para nós, ferida mas viva, fazendo chorar muita gente que, à minha volta, cantava deixas como “a carne mais barata do mercado é a carne negra” com incrível fervor.

À saída do Coliseu, disseram-me mais tarde, alguns fãs esperaram a sua heroína (prefiro esta expressão à sempre pejorativa “diva”), entregando-lhe ramos de flores e salvas de palmas. Da sua entourage, Elza, cuja mobilidade reduzida não a impediu de acabar em Lisboa uma intensa digressão pela Europa, só pôde contar com carinhos e atenção. “Tratavam-na como uma avó”, contaram-me. Em palco, emocionou pela música, pela voz e pela mensagem: em defesa do amor e da liberdade, contra a violência e a vergonha de denunciar.

Tal como na noite de William Tyler ou na matinée de Meg Baird, soubemos ser um público à altura de uma senhora que até pode apresentar-se num trono mas é humana, demasiado humana. E se saber escutar e participar num espetáculo como este é de aplaudir, acarinhar quem nos proporciona estas experiências pode realmente, como nos diziam na quinta-feira, ser um ato de protesto – contra a indiferença, o cinismo e a angústia que tanto nos consomem os dias.