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À espera de “Trainspotting”...

O filme que marcou uma geração vai ter uma continuação vinte anos depois... Chega em 2017, com os mesmos atores, o mesmo realizador... Como aperitivo servem-se, para já, memórias do filme original, na forma de uma edição em vinil cor de laranja de uma banda sonora que fez história em 1996

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Quando, nos anos 90, Lou Reed voltou a pisar o palco ao lado de John Cale, Sterling Morrisson e Moe Tucker, o mundo ainda não estava lá muito bem a essa ideia de que as bandas, afinal, podiam ter mais do que uma vida... Já sabíamos que 007 podia viver, pelo menos, duas vezes. E que os gatos tinham sete vidas... Na música, em pouco tempo, a surpresa do que eram exceções inesperadas, como a dessa reunião dos Velvet Underground, começou a fazer-se regra. Desde então já vimos novamente juntos, mesmo depois de separações (por vezes) violentas, nomes como os Blondie, Pixies, Bauhaus, Spandau Ballet, The Police ou os Blur, entre muitos mais. Agora, a ideia chega ao cinema. E em 2017 vamos reencontrar, reunidos, Mark “Rent-Boy” Rentony (interpretado por Ewan McGregor), Daniel “Spud” Murphy (Ewem Brenmer), David “Sick Boy” Williamson (Johnny Lee Miller) e Begbie (Robert Carlyle). Os seja, os quatro protagonistas de Trainspotting, numa sequela novamente realizada por Danny Boyle e uma vez mais tendo a escrita de Irvine Welsh como ponto de partida para a criação da narrativa. E se ainda é secreto o que será o “era uma vez” que este filme nos vai apresentar, outro dos segredos à espera de ser revelado é o lote de canções e músicos que a banda sonora convocará. Isto porque não se pode pensar uma sequela de um dos filmes mais marcantes na história do relacionamento do cinema com a cultura pop/rock sem imaginar que, tal como se reuniram os atores, também é preciso não descuidar a banda sonora para que o reencontro com o universo Trainspotting faça sentido em todas as frentes.

Poucos dos que viveram os dias de juventude nos anos 90 (e falo das geografias da cultura dita ocidental, naturalmente) terão escapado a Trainspotting. Foi, mesmo, daqueles filmes que marcam uma geração. E se os quase contemporâneos Assassinos Natos, de Oliver Stone e Pulp Fiction, de Quentin Tarantino (ambos de 1994) colocaram em cena (para essa mesma geração) uma forma de construir bandas sonoras capazes de transportar depois para disco a experiência vivida no cinema, então coube a Trainspotting a fixação definitiva dessa tendência, criando um hábito que só de perdeu porque, depois do ano 2000, o disco deixou de ter o mesmo peso de mercado quando as vendas de música gravada começaram a tombar, só recuperando com o surto recente do consumo por streaming. E, por esta altura, já a ideia do “disco” com a banda sonora tinha deixado de fazer sentido como outrora. As playlists, para muitos, cumprem agora esse papel.

Mesmo assim há um valor histórico e de relacionamento emotivo que justifica que, antes mesmo de começarmos a saber mais sobre o regresso de Trainspotting, uma nova abordagem a este universo se faça com o lançamento, em vinil (coisa que estava fora de moda em 1996) da banda sonora do filme original.

E convenhamos que esta banda sonora fez história. Bem selecionada, a música estabelecia uma série de jogos de contrastes. Entre o antigo e o recente. Entre o rock e a música de dança. Entre peças mais ambientais e momentos de viço elétrico ou eletrónico... Nomes como os Primal Scream ou Damon Albarn (naquela que seria a sua primeira criação “a solo”) contribuíram com novidades absolutas. Os Sleeper criaram uma versão de “Atomic”, dos Blondie. Havia memórias dos New Order, dos Blur... Mas quem ganhou visibilidade maior através do filme foram, na verdade, duas criações já com vida anterior em disco. Criação conjunta de Iggy Pop e David Bowie, “Lust For Life” passou a ter em Trainspotting um cartão de visita para uma nova geração de ouvintes. E “Born Slippy” dos Underworld, que tinha surgido como single em 1995, conquistou aqui um lugar de destaque na história musical dos noventas.

O reencontro, em (saboroso) álbum duplo em vinil cor de laranja, é assim um belo primeiro aperitivo para o regresso a estas figuras e a este universo. E que o bom gosto ilumine quem, entretanto, certamente já escolheu a música para o segundo filme...