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E tu, onde é que estavas quando Freddie Mercury morreu?

A 24 de novembro de 1991, dois dias depois de sabermos que se encontrava doente, a voz dos Queen calava-se para sempre. Um choque, mas também um reinício

Começarei por responder à pergunta: estava numa aula de Religião e Moral, no 8º ano. O Padre Alcides, que não era bota de elástico e já falava na pílula e no preservativo, deveria estar a passar mais um vídeo das aventuras da Galileia porque a atenção da audiência era pouca. O burburinho aumenta, de súbito, e lá vem bomba: morreu o Freddie Mercury. A aula "acabou" e lembro-me de se voltar a falar no preservativo, mas também houve algumas "bocas foleiras".

Em 1991 morria-se muito de sida. Aliás, sida escrevia-se com maísculas: SIDA. O papão era grande, os equívocos também (Mercury morrera, no entender de alguns dos meus colegas, porque era "paneleiro") e, de repente, fãs assolapados começaram a questionar a sua devoção. Nos dias que se seguiram, entre alguma estudantada de uma escola do litoral-oeste, ser fã dos Queen era admirar um tipo que enganou toda a gente e morreu "sidoso". Outros (e aqui me incluo, sem peneiras) preferiram celebrar o vivo: Mercury era uma estrela rock, das maiores, um símbolo do Bem.

Comecei, por essa altura, a descobrir os Queen que me tinham escapado até aí. Para um miúdo de 14 anos que cresceu nos anos 80, os Queen eram "A Kind of Magic", "I Want To Break Free" ou "Friends Will Be Friends". Lembrava-me da atuação no Live Aid (até porque deu em direto na RTP no dia em que fiz 8 anos) e do concerto de Wembley um ano depois. Freddie Mercury era um tipo bem constituído de bigode. Gradualmente, porque o acesso ao fundo de catálogo não era fácil fora dos centros urbanos, fui apanhando tudo o que de mais remoto aparecia. E lá se desvendaram os Queen de cabelo comprido, com vestes largas e a parecerem, imagine-se, uma banda de hard rock!

Fulcral foi a descoberta de Queen II, o segundo álbum da banda, da qual só conhecia o single "Seven Seas of Rhye". Rock pesado, baladas ao piano, cavalgadas épicas, uma lírica mitológica, imperscrutável e fascinante. Canções cantadas por Brian May e Roger Taylor, tão calados que estiveram na década seguinte... A semente de "Bohemian Rhapsody" está nesse repositório de inventividade, num disco que os Queen "comerciais" dos anos 80 viriam a apagar.

A partir daí, armei-me em connoisseur e passei a defender os anos 70 da "rainha" nas conversas dos intervalos das aulas. Até o Hernâni, o metaleiro-mor que me daria a conhecer o doom metal atmosférico (sempre a pedir-me cuidado para não esfarelar os digipaks), se deixou apanhar pela pujança de "Ogre Battle", um dos pináculos do segundo tomo de Freddie Mercury, Brian May, John Deacon e Roger Taylor. Enquanto o Cristiano abraçava Bob Marley e todas as moças beijavam fotos de Jim Morrison, eu descobria uns Queen desconhecidos - e, a partir deles, todo o restante rock bojudo dos anos 70.

Em novembro de 1991, pouco antes de Mercury morrer, foi o basquetebolista Magic Johnson a anunciar que era seropositivo. Eu estava numa aula de Geografia, já que perguntam. Ao contrário de Freddie Mercury, Magic Johnson ainda está entre nós e ainda bem (ver em 1993 um filme como And The Band Played On..., baseado no livro de Randy Shilts com o mesmo nome, não prenunciava bons ventos). Vinte e cinco anos depois, a sida não mata tanto, não mata tão depressa e muitas vezes não mata de todo. Um brinde aos que a "normalizaram", aos que a combateram, aos sobreviventes e também aos que tiveram menos fortuna - como Freddie Mercury, um dos únicos.