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William Tyler

O meu disco do ano vem a Portugal esta semana

Na próxima quinta-feira, o norte-americano William Tyler dá um concerto a não perder na Casa Independente, em Lisboa

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

O sinal de partida foi dado, como habitualmente, pela Rough Trade – há poucos dias, a editora que é também retalhista lançou a sua lista de melhores discos do ano ao qual o calendário já só dá algumas semanas de vida.

Todos os anos, e não obstante a morte há tanto anunciada do formato álbum, ou os valores cada vez mais esqueléticos de vendas de discos, o público consome esta informação com algum apetite (na era da internet, é fácil medir a adesão dos leitores a cada notícia, e acreditem quando vos digo que este tipo de “conteúdo” conserva algum sex appeal).

Porque queremos ver validadas as nossas escolhas, porque desejamos descobrir o que andamos a perder nos últimos meses e até por uma simples questão de clubismo, fenómeno que está longe de se limitar ao futebol, gostamos de ver as listas dos outros. E alguns de nós até gostamos de as fazer.

Aqui na BLITZ, as hostilidades também já foram abertas, ou seja, o mail pedindo à redação e aos colaboradores que enviem os seus topes pessoais já foi enviado. Ainda é cedo para, passando os olhos pelas primeiras votações destes jurados melómanos, perceber quem está em melhores condições para cortar a meta em primeiro lugar, mas a variedade das escolhas deverá assegurar, pelo menos, um top final eclético qb.

Embora ainda não tenha ordenado as demais escolhas, no top internacional sei quem liderará a minha lista: Modern Country, o mais recente álbum de um rapaz que, aos 36 anos, é já um velho favorito, William Tyler.

Se tiver de revelar o músico que, ao longo dos últimos quatro anos, mais companhia me tem feito na redação dos artigos mais longos, aqui mesmo na BLITZ, é este moço de Nashville, que sem palavras conta as histórias mais cativantes. Ao som de Impossible Truth, primeiro, e de Modern Country, este ano, não só encontrei um “espaço mental” onde consigo desfrutar da música e, ao mesmo tempo, concentrar-me na escrita, como quase me sinto a concretizar um sonho de velha data: atravessar os Estados Unidos de costa a costa, no carro que não tenho, absorvendo todos os sonhos e fantasmas de uma nação que está longe de ser apenas um espaço delimitado num mapa.

Um clichê? Sem dúvida. Mas discos como Impossible Truth – onde William Tyler juntou mais instrumentos à sua guitarra maravilha, sem perturbar a respiração das canções – fazem-me ansiar por, como diria um amigo, uma daquelas viagens longas, na companhia de alguém com quem nos sentimos tão à-vontade que as palavras se tornam dispensáveis. Como na música deste nativo do Tennessee, de resto, que na próxima quinta-feira toca na Casa Independente, em Lisboa. Mais um cliché: um concerto a não perder. Mas, no meu caso, o cliché é, mais uma vez, verdade: afinal, não é todos os dias que vemos ao vivo um pedaço da América na qual desejamos continuar a acreditar.