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Obrigado, Sharon Jones

A história do primeiro concerto de Sharon Jones em Portugal contada por uma das pessoas que o organizaram, Rui Miguel Abreu, colaborador da BLITZ

Eu, o D-Mars e o José Belo - o trio da Loop:Recordings -, fizemos o primeiro concerto da Sharon Jones em Portugal. Foi em julho de 2005, no Santiago Alquimista, em Lisboa. Uma perfeita loucura, devo dizer. Tínhamos distribuído o Naturally em Portugal, conseguindo a proeza de vender umas quantas centenas de cópias na FNAC, o que nos deixou surpreendidos - a nós e à Daptone também, que depois nos propôs fazermos cá o concerto.

Os Dap-Kings e a Miss Sharon Jones chegaram a Portugal num velho autocarro. Fui encontrar-me com eles de madrugada numa bomba de gasolina da 2ª Circular e, antes de os levar à Pensão Nova Goa no Martim Moniz (sim, foi esse tipo de produção amadora...), ainda fui com eles a um apartamento em Lisboa para os abastecer de um chá verde especial, daquele de enrolar e que faz rir muito (sim, foi mesmo esse tipo de produção amadora...).

Mortos de fome, pediram para comer e eu levei-os a uma roulotte no Campo das Cebolas onde se fartaram de comer bifanas. A Sharon Jones, enquanto cá esteve, não quis comer mais nada. Jantámos na Casa do Alentejo no dia seguinte, mas depois do jantar a senhora Jones ainda pediu que a levasse a comer umas bifanas - o que foi feito, claro.

E depois aquele concerto! Aquele concerto! Em palco, vários dos músicos que depois fizeram com o Mark Ronson o Back To Black, de Amy Winehouse, e à frente deles - qual furacão benigno, de alma e orgulho, de groove incontido - a senhora Sharon Jones. Um dos melhores concertos da minha vida e, felizmente, não precisei de saber do desaparecimento desta senhora para o reconhecer: repeti-o várias vezes nestes onze anos que passaram.

Só voltei a vê-la uma vez depois disso, no Super Bock Super Rock, na mesma noite de Prince. Voltei a estar com os rapazes dos Dap-Kings nos bastidores e recordámos as bifanas e a pensão do Martim Moniz, entre risos. Perguntaram-se se eu tinha chá daquele que lhes tinha arranjado da outra vez - "nem cidreira, meus caros".

Depois, mais tarde, soube dos problemas de saúde de Jones e acreditei que a senhora os tinha superado, porque queremos sempre acreditar que aqueles de quem gostamos muito são eternos...

Ano duro, este.

Descansa em paz, senhora Jones.