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Iggy Pop - Pavilhão da Luz 1994, Alive 2011 e SBSR 2016

Rita Carmo

Gosta de música? Então não deixe de ir ao cinema...

O documentário sobre os Stooges que esta semana chega aos ecrãs portugueses mostra como Jim Jarmusch seduziu o grande ecrã com a presença de Iggy Pop, fazendo de “Gimmie Danger” mais um importante episódio na história do relacionamento do cinema com a música

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Nos últimos anos não têm faltado propostas que nos fazem sentar numa sala escura com a música como motivo para ali estarmos a ver um filme. Seja para assistirmos um concerto filmado (como Martin Scorsese fez com os Rolling Stones em Shine a Light ou David Lynch com os Duran Duran em Unstaged), seja para acompanharmos um momento especial na vida de um artista (como, em Shut Up and Play The Hits, de Dylan Southern e William Lovelace, seguimos aquele que supostamente teria sido o concerto de despedida dos LCD Soundsystem), descobrir os bastidores da criação ou de um disco (como nos mostraram os Arcade Fire em The Reflektor Tapes, de Kahill Joseph), conhecer um disco em primeira mão (tal como Nick Cave fez com as canções do recente Skeleton Tree em One More Time With Feeling, de Andrew Dominik) recordar uma biografia bem contada (como a de Amy Winehouse em Amy, de Asuf Kapadia), para ouvir (e ver) revelações sobre alguém que muito admiramos (como em Cobain: Montage of Heck, de Brett Morgen) ou até para conhecer alguém de quem nunca antes tínhamos escutado um disco (como em Searching For Sugar Man, de Malik Bendjelloul, que nos apresentava o sul-africano Sixto Rodriguez).

O filão pop/rock (e suas periferias) que o cinema tem vindo a explorar nos últimos tempos está bem de saúde e recomenda-se. Há filmes sobre música a ganhar lugar nas agendas das estreias comerciais. Muitos outros surgem em DVD ou nas plataformas de distribuição por VoD. E não falta depois uma oferta ainda maior e mais diversificada entre os muitos festivais de cinema, que asseguram já uma considerável exposição entre nós da produção de documentários e filmes-concerto que vai surgindo um pouco por todo o lado a cada ano que passa.

O panorama atingiu uma dimensão tal que já os grandes nomes do cinema norte-americano começam a ter projetos musicais em carteira. Não por oportunismo, entenda-se, que nos casos que temos visto há histórias de relacionamentos antigos de todos estes cineastas com a música (e, por vezes, até com os artistas sobre os quais fazem filmes). Mas a presença destes nomes de primeira linha dá conta de como este é um espaço ao qual a indústria do cinema está a dar devida atenção...

Além de Martin Scorsese, que em tempos filmara os The Band ao vivo e mais recentemente os Rolling Stones, e que tem já na sua filmografia documentários sobre Bob Dylan e George Harrison, ou de Jonathan Demme, que assinou importantes filmes-concerto com os Talking Heads ou Neil Young, outros nomes fazem questão de entrar neste terreno fértil. Ron Howard fê-lo este ano, com Eight Days A Week, um documentário no qual nos fez recuar aos dias em que os Beatles andavam na estrada, correndo de palco em palco. Agora chega a vez de um reencontro de Jim Jarmusch com estes universos. Na sua obra havia já um filme dedicado a Neil Young. Assim como uma presença recorrente de (boa) música com um papel de peso nas suas histórias de ficção. E aí basta lembrar o recente Apenas os Amantes Sobrevivem para reparar que aquela era, afinal, a história de um vampiro com séculos de vida, que descobrira no rock’n’roll um novo fulgor criativo.

Gimmie Danger é o novo filme de Jim Jarmusch. É um documentário, no qual são usadas técnicas relativamente clássicas para contar uma história, cruzando entrevistas recentes com imagens de arquivo. De novo há, por um lado, uma primeira abordagem deste teor do cinema à obra dos Stooges (a banda proto-punk que nos revelou a figura de Iggy Pop no final dos anos 60). E, por outro, um jogo de confiança entre o realizador (que era um frequentador habitual do CBGB, o bar onde o punk nasceu na Nova Iorque dos anos 70) e os músicos, em particular o próprio Iggy, que descobrimos no grande ecrã em conversas num registo de inesperada candura, encadeando memórias, histórias e gargalhadas, para contar, como o diz o realizador, a história da maior banda de rock de todos os tempos.

Logo no início do filme (que esta semana estreia entre nós depois de uma primeira exibição no Lisbon & Estoril Film Festival) é-nos lembrado como em tempos a música dos Stooges levantou palavras menos entusiasmadas. Em 1973, como ali se conta, eram uma banda à beira do colapso, com críticas a descrevê-los como loucos, bizarros, sem gosto, decadentes, amadores, iletrados, com falta de imaginação... O tempo mostrou que, afinal, se tornaram num caso invulgarmente influente na história do rock.

Mais de 40 anos depois, as histórias que Jim Jarmusch redescobre em Gimmie Danger conseguem transcender o impacte imediato da música de que falam. E mesmo que não se seja apreciador de Iggy Pop (ou dos Stooges em particular) convenhamos que ninguém sairá da sala escura sem reparar que Jim Jarmusch sabe aqui explorar sobre o músico um olhar como só um grande ecrã poderia fazer. O cinema gosta de música, já sabíamos. E com Jim Jarmusch, Iggy Pop somou agora um episódio a esta história.