Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Opinião

Adeus, David Mancuso

Rui Miguel Abreu despede-se de mais um herói, desta vez um daqueles mais obscuros, menos celebrados na esfera pop, mas não menos visionários. Vai longo este ano de perdas irreparáveis...

Hoje mesmo duas notícias aparentemente desligadas aterraram na minha caixa de correio digital logo pela manhã. A primeira dava conta do triste desaparecimento de David Mancuso aos 72 anos, a segunda avança a data da reedição de Rude Movements, clássico obscuro do duo Sun Palace. Em comum, Mancuso e Sun Palace terão a muito comum condição de serem simples "gotas" no oceano de nomes que pouco acusaram no radar mainstream da música popular, nomes mais ou menos secretos, celebrados apenas por quem gosta de passear os ouvidos pelas margens da história.

Mancuso é uma referência desde pelo menos 1999. Foi nesse ano que descobri o seu nome nas páginas da "bíblia" Last Night a Dj Saved My Life de Bill Brewster e Frank Broughton e que a Nuphonic, editora londrina comprometida com o lado mais "disco" do house, lançou o primeiro de dois preciosos volumes dedicados ao Loft. O Loft era, muito literalmente, a casa de David Mancuso, onde aconteciam umas muito livres e ainda mais especiais festas onde toda a atenção era concentrada na música. Foi aí que com um sistema de som topo de gama, sem inteferir com os discos ao nível da mistura ou do pitch, David Mancuso foi revelando as pérolas que o seu apuradíssimo gosto ia descobrindo, de Manu Dibango... aos Sun Palace.

Que a londrina BBE reedite agora o obscuro clássico Rude Movements, explicando como a sua revelação nas míticas noites do Loft o transformou num disco obrigatório nas cabines de DJs como Larry Levan ou Frankie Knuckles, é a confirmação de que, neste caso particular, 35 anos depois de rodarem pelos ouvidos da elite noturna de Nova Iorque pelas mãos de Mancuso, grupos como os Sun Palace continuam a conquistar o futuro que originalmente ninguém lhes vaticinou. E isso porque a visão larga e generosa de David Mancuso teve o condão de alcançar o futuro muito antes de muitos dos seus pares.

Mancuso desaparece agora, mas o tempo ainda tem muitas contas a ajustar com a sua particular relação com a música. Interessado nas ideias de comunidade, de partilha, de espiritualidade, de groove de recorte cósmico, David Mancuso encontrava pérolas no rock e no jazz, no disco sound e na electrónica nascente, em África e na Europa, provando ter uma paixão inclusiva, capaz de ignorar fronteiras entre géneros, cores e credos, entre dogmas novos e velhos, entre "alta" e "baixa" arte. Para Mancuso, a música era a cola que nos unia a todos e o mais crucial dos alimentos da alma. Ter-nos ensinado isso garante-lhe a eternidade.

  • E depois de Trump?

    Opinião

    E depois de Barack Obama? Como vai a música espantar as nuvens cinzentas que parecem erguer-se no horizonte. Rui Miguel Abreu acredita que podem vir aí obras importantes, daquelas que as pessoas precisam para enfrentar tempestades