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Gisela João

Estelle Valente

Um original vale mais do que uma versão?

Quantos de nós chegámos, na década de 90, a Leonard Cohen via Jeff Buckley?

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

No breve mas intenso concerto que deu no Auditório da Impresa, na passada sexta-feira, Gisela João foi apresentando as canções do novo Nua com observações invariavelmente pessoais e certeiras. A certa altura, confessou que, recentemente, ficou triste quando ouviu alguém dizer que preferia sempre um original a uma versão – mesmo que o original fosse um mau original.

Para a mulher de Barcelos, este é um pressuposto que não faz sentido. No seu segundo álbum, editado de surpresa naquela mesma sexta-feira, dia de São Martinho, canta-se a extravagância de Carlos Paião para Amália Rodrigues (“Senhor Extraterrestre”), o clássico “La Llorona” e, para minha grande comoção, dois clássicos de Cartola: “O Mundo É Um Moinho” e “As Rosas Não Falam”.

Não sei bem localizar no tempo a noite em que tive o privilégio de assistir a um concerto – também breve, também intenso – de Gisela João na casa de fados de Helder Moutinho, cantor e seu agente. Na altura, a minhota preparava-se para embarcar numa digressão pelos Países Baixos e a Lisboa veio um jornalista belga falar com imprensa, profissionais do meio e a própria. No fim de um jantar de pataniscas de bacalhau e arroz de feijão, Gisela cantou. O jornalista nunca a tinha ouvido ao vivo, muito menos a cappella, como naquela noite na Mouraria. Quando lhe perguntaram se tinha gostado, respondeu apenas, com contenção setentrional: “Sim, parece que a voz não sai dela”.

E foi precisamente na versão de “As Rosas Não Falam”, que ali a ouvi cantar pela primeira vez, que essa sensação me assolou pela primeira vez. O som parecia brotar do soalho de madeira, como uma qualquer manifestação natural (sísmica?) do solo que nos vai aguentando a todos. A inspiração, sim, vinha toda dela. E ninguém naquele momento terá parado para pensar se o que acabávamos de ouvir era um original ou uma versão.

Com a intensidade, a capacidade de reinventar ou a magia certas, uma versão pode valer pelo menos tanto como um original, tendo ainda a mais-valia de dar a conhecê-lo a um público que a ele não fora exposto. A minha afilhada de 9 anos, por exemplo, chegará a Amália Rodrigues através da Gisela João e da Ana Moura, de quem é fã, tal como, nos idos de 90, eu e tantas pessoas da minha geração chegámos ao «Hallelujah» de Leonard Cohen pela versão – inimitável, quiçá se mesmo inultrapassável – de Jeff Buckley. Haja espaço, ouvidos e coração para todos.