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Kanye West 2020? Não me parece nada uma boa ideia...

O músico já o tinha sugerido. E desde que se sabe o resultado desta eleição, não falta quem clame que Kanye West seja candidato à Casa Branca em 2020. Por muito que de novo tenha havido neste ciclo eleitoral que deu vitória a Trump, não é por aí que o futuro deve seguir

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Há muitas lições a tirar, em muitas frentes, face ao que aconteceu esta semana nos EUA. A vitória, que para muitos parecia impossível, de Donald Trump, terá em primeiro lugar imediatas consequências políticas, restando ver de que forma a sua ação a partrir de janeiro vai sublinhar ou contradizer algumas das linhas mestras do discurso de caça ao voto. Depois obrigará a profundas reflexões sobre o que se disse durante os longos da campanha mais mediaticamente intensa de que há memória (em particular no plano das sondagens e das suas interpretações, que mostraram um problema de pontaria que dará trabalho a afinar). E abrirá um ‘case study’ a que a ciência política se lançará tal como um astrónomo sobre um novo planeta descoberto... E é neste último plano que há que entender que o “caso” Trump não será episódio único, poderá ter réplicas tanto ali como mais longe (e estou a pensar na Europa), e não só em vários lugares do espetro ideológico , como poderá revelar por ponto de partida para futuros candidatos outros lugares igualmente inesperados. Se um homem de negócios tornado celebridade pela televisão se tornou presidente, então porquê pensar que as portas estão fechadas noutras frentes? Aberto o precedente – e há quem lhe possa chamar uma caixa de Pandora – não faltará quem queria tentar a sua sorte, correndo nós o risco de vermos a política transformada num destino desejado por quem, sem preparação para a fazer nem mesmo estando dotado da consciência de que aquele é um espaço de cidadania que deve ter como objetivo o bem comum e não um desfile de egos, a queria transformar num espetáculo.

Desde terça-feira não faltam, nas redes sociais, as mais variadas sugestões de quem poderá ser candidato em 2020. Das mais informadas, que dão conta do debate interno (tremendo) que deverá revelar mais ainda as convulsões dentro do Partido Democrata que vieram à luz no confronto entre Hillary Clinton e Bernie Sanders durante as primárias, às mais disparatadas. E nestas estão aquelas que se lembram do que Kanye West afirmou há já algum tempo numa cerimónia de entrega de prémios, na qual disse que queria ser candidato à presidência dos EUA.

Kanye 2020?... Não me parece nada uma boa ideia...

Que fique aqui claro que esta não é uma opinião musical. Kanye West é um dos músicos mais interessantes do nosso tempo. E autor de uma das obras mais ricas em ideias musicais alguma vez nascidas no universo do hip hop. Mas não é pela criatividade como autor, pelas ideias que possa defender nas suas canções ou até mesmo o que diz nas entrevistas, que vamos transformar um dos músicos maiores do nosso tempo num candidato a algo que, como diriam os Monty Pyton, é “algo completamente diferente”.

É verdade que já tivemos um ator na Casa Branca... Mas começou uma carreira política algum tempo antes e deu voz um modo de agir e pensar que moldaria até o sentido de uma identidade conservadora para o seu tempo e redefiniu alma do Partido Republicano pelo menos até ao advento do populismo do movimento Tea Party. E se quisermos andar por Hollywood, nas ações de um George Clooney até há hoje em dia um candidato mais evidente (e potencialmente ganhador) do que Kanye West.

Mesmo tendo dose valente de tweets de Donald Trump mostrado como há novas formas de comunicar em tempo de campanha, não há em Kanye West um político. Podem dizer que em Trump, até há algum tempo, também não havia... O certo é que nascido como político com aquele “caso” triste ligado à dúvida sobre o certificado de nascimento de Barack Obama, Trump começou a vestir essa pele. Fê-lo depois clamando que trazia a mudança. E ganhou a eleição.

Kanye West é um dos mestres do soundybte. De facto. E de tantos que emitiu e foram citados já podia ter nascido um livro de aforismos, que deixaria clara a dimensão do ego por detrás destas palavras. Se a presidência americana é destino que corresponde a uma dimensão maior de um ego, o jogo de afinidades até pode sugerir (nele) que a candidatura faria sentido. Mas, mesmo tendo esta eleição sido um balde de água fria lançado sobre hábitos, rotinas e instituições, não vamos pensar que há um novo paradigma. Encaremos Trump como uma exceção. Que, tal como Miguel Sousa Tavares tão bem ontem defendeu na SIC, deverá ser experiência de um mandato só. Porque uma coisa foi o aparato. Outra será a capacidade para depois fazer as coisas. E neste plano de ideias, em ver de andarmos a perder tempo com candidaturas showbiz para 2020, deixemos antes que os americanos encontrem em si candidatos que saibam concorrer, ganhar e, depois, governar. Se havia algo da cultura pop na relação de Barack Obama com os media e os cidadãos, que seja antes esse o novo paradigma.

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