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E depois de Trump?

E depois de Barack Obama? Como vai a música espantar as nuvens cinzentas que parecem erguer-se no horizonte. Rui Miguel Abreu acredita que podem vir aí obras importantes, daquelas que as pessoas precisam para enfrentar tempestades

Cantavam os Monty Python, tipos inteligentes que teriam hoje certamente algo de acertado a dizer, que devemos sempre olhar para o lado mais brilhante da vida. De facto, uma forma de levar as coisas sem atitudes desesperadas é tentar adivinhar algo de bom até nas notícias mais dramáticas. Permitam-me que tente algo do género neste dia tão particular.

Alguns académicos referem que o hip-hop floresceu com as políticas de desvios de fundos da educação para outras áreas na era de Reagan, nomeadamente para o sctor militar. Com os programas de ensino de música privados de fundos nas escolas públicas, uma geração inteira de miúdos das inner cities viu-se obrigada a procurar outras formas, outras ferramentas para se exprimirem musicalmente.

Por outro lado, eras difíceis, deficitárias em liberdade ou de forte aperto económico, têm historicamente espevitado a criatividade, inspirado os artistas de todos os quadrantes a comunicar ideias progressivas de forma imaginativa, que permita contornar constrangimentos históricos específicos. Foi assim, por exemplo, durante a ditadura em Portugal.

Esta eleição de Donald Trump terá certamente consequências a esse nível. E não estou a falar da ameaça de Snoop Dogg de se mudar para Toronto (e certamente que isso nenhuma relação terá com o florescimento do seu negócio legal de marijuana no Canadá). Estou a falar dos músicos poderem erguer-se como uma espécie de contrapoder benigno, capaz de abordar os assuntos importantes que se agigantam no horizonte, capaz de informar correctamente as gerações vindouras dos desafios que parecem estar a formar-se no futuro próximo.

Beyoncé e Kanye West, Chance The Rapper e Kendrick Lamar, Springsteen, Bono... há muitas vozes que terão que cuidar o que vão comunicar nos próximos tempos, porque todas essas vozes têm consciência da responsabilidade que repousa sobre as suas carreiras. Vai ser divertido voltar a ouvir as letras que a pop nos vai impôr. Muitos artistas vão certamente assobiar e olhar para o lado, mas outros não vão conseguir ficar calados. Será desses, o futuro.