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Quando é que os discos novos deixam de importar?

Depeche Mode, Foo Fighters, Red Hot Chili Peppers: as primeiras confirmações dos grandes festivais em 2017 estão a entusiasmar os fãs. Mas alguém quer - realmente - saber dos discos novos?

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Nas últimas semanas, arrancou oficialmente a pré-época dos grandes festivais de verão. Em menos de um mês, foram anunciados concertos de Depeche Mode e Foo Fighters para o NOS Alive e Red Hot Chili Peppers para o Super Bock Super Rock. Grandes nomes da arena rock, serão certamente suficientes para acelerar a corrida às bilheteiras até ao Natal, quer em Portugal quer no estrangeiro, onde os festivais nacionais têm cada vez mais notoriedade.

Ontem, enquanto tentava esclarecer se eram verdadeiros os zunzuns sobre o regresso dos Foo Fighters a Portugal, dei por mim a tentar lembrar-me do último grande sucesso da banda de Dave Grohl, sem grande sucesso. Desconheço até se os norte-americanos trarão ao Passeio Marítimo de Algés um novo álbum; o último, Sonic Highways, data de 2014 e produziu uma mão cheia de singles que a minha memória auditiva não guardou.

O fenómeno não é, obviamente, exclusivo. Na semana passada, quando o Super Bock Super Rock confirmou a contratação dos Red Hot Chili Peppers para a sua edição de 2017, as reações de júbilo não se fizeram esperar. Nas redes sociais, os fãs de Kiedis, Flea e companhia partilharam a notícia, taggaram amigos, fizeram planos e contas à vida. «É desta que vamos ouvir a “Give It Away”!», vi alguém, talvez ainda não nascido no ano da graça de 1991, a exultar. Ainda no passado verão, os Red Hot Chili Peppers lançaram um álbum novo – intitulado The Getaway, é uma forte coleção de canções, com a frescura possível de uns cinquentões duros de roer cujo apelo sempre passou muito pelos palcos. A wikipédia diz que o disco, produzido por Danger Mouse, foi um êxito comercial, mas não vejo muita gente a entusiasmada com a ideia de ouvir ao vivo «Dark Necessities» ou «Go Roboto». E os Chili Peppers até são uma banda com muitas vidas, tendo sabido reinventar-se e atrair um público jovem em várias fases da sua carreira (em 1999, estava eu quase a sair da faculdade, ouvi uns garotos a referir-se-lhes como «aquela banda nova». Tinham acabado de lançar Californication).

Mas a ideia de que, a partir de certa altura, o lançamento de um disco novo serve praticamente apenas como pretexto para entrar em digressão ficou sobretudo clara durante a conferência de imprensa que os Depeche Mode deram em outubro. Perante uma plateia de jornalistas bem efusivos, a banda inglesa começou por dizer que, na primavera do ano que vem, lançará Spirit, o seu 14º álbum de estúdio. O silêncio fez-se ouvir. «Quanto entusiasmo…», brincaram os músicos, acusando o toque do desinteresse. O que interessava, ou o que se esperava, veio a seguir: o anúncio da digressão Global Spirit, que passa por Portugal em julho, para um concerto no NOS Alive.

Destas três bandas, a mais jovem – e, mesmo assim, já com mais de 20 anos no ativo – são os Foo Fighters. Tanto os Depeche Mode como os Red Hot Chili Peppers se formaram no início dos anos 80, sendo hoje dignos veteranos. Mas a relativa indiferença face ao material novo não afeta apenas os artistas da sua idade. No ano passado, imprensa e fãs deliraram com o regresso dos Radiohead – uma banda geralmente mais virada para o presente do que para o passado – ao baú, para tocarem «Creep» ou «Let Down»; este ano, PJ Harvey levou muita gente ao Coliseu de Lisboa para ver um espetáculo construído à volta de Let England Shake e The Hope Six Demolition Project, mas a verdadeira catarse deu-se quando Polly Jean rasgou com «50 Ft Queenie» ou «To Bring You My Love». Ainda mais jovens: quem quer ouvir as canções que os Interpol, os Strokes ou os Franz Ferdinand lançaram depois do segundo ou terceiro álbum, mais coisa menos coisa?

Sim, eu sei que entre vós há fãs completistas de todos estes artistas, e que nas primeiras filas dos concorridos concertos do próximo verão haverá quem conheça de trás para a frente os lados B de todos os singles do último álbum. Mas não é essa a massa humana que enche os recintos dos festivais ou as salas de concertos. E a dúvida continua a apoquentar-me: quando é que os discos novos deixam de importar, e porquê?