Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Opinião

Não acreditem na internet

Os anos 90 estão à venda: leve 2, pague 1

Tivesse eu um diário dos meus tempos de maior tenrura e esta prosa seria mais fácil. Provavelmente mais chata, mas mais fácil. Certamente esquecido (e mal-agradecido), direi que escrever diários era, nos anos 90, um aborrecimento porque nos anos 90 do século XX não se passava nada – até porque estávamos entretidos a pensar no quão excitante deveria ter sido aquele regabofe iniciático dos 60 e 70.

A nostalgia dos anos 90 que hoje nos é imposta (das farpelas à emulação dos defeitos do VHS, não ignorando os cardápios musicais) é, em boa medida, um embuste: é uma releitura mitificada de uma década que nos é suficientemente distante para funcionar como detonador de saudade fossilizada (por vezes de coisas que nem vivemos) e próxima para que nos sintamos tentados a dizer que estivemos lá e fizemos parte (mesmo do que não experienciámos).

Os anos 90 são hoje muito mais vastos do que aqueles que, de facto, alguns de nós calcorrearam. Hoje cabe tudo o que, estando lá, não era necessariamente de todos: a música underground mais cool, os filmes desalinhados, as caves poeirentas onde se viviam as experiências mais "fora". Os anos 90 vistos a partir do século XXI são, pois, uma falsificação. Um retrato pitoresco, retro, cool, vendável, "lembra-se de como foi tão bom?".

Os meus anos 90 (e aqui substitua por 80 ou 00 se melhor lhe convier) são o quase nada de que me recordo ou o quase tudo que transporto, recolhido nas duas décadas posteriores? Não sei; perdi o rasto das ex-namoradas e não tive paciência para escrever um diário. E a internet não ajuda.