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E é aquela altura do ano, outra vez...

Haverá quem antecipe este momento, haverá também quem revire os olhos, mas é uma das certezas incontornáveis da vida de um crítico de música: a eleição dos discos do ano

Não sei. Não faço ideia. Não tenho raiva de quem sabe, mas talvez alguma inveja. Qual é, afinal de contas, o álbum do ano? Será o do Kanye? O do Chance? O do Danny? Será o do Frank? O do Nick? Será o da Angel? (Para mim não, que não o ouvi). Será o dos Radiohead? (Idem...), da Anohni? Será o Blackstar ou o Lemonade? O Malibu ou o Wildflower?

É uma particular espécie de angústia, esta a que me assalta sazonalmente, quando sou obrigado a hierarquizar as audições do ano e me vejo confrontado com o esmorecimento de certos entusiasmos precoces ou com a inesperada revalorização de algum título a que incialmente reagi de forma indiferente. E depois há o pânico: "e se o melhor disco do ano é um dos que escolhi não ouvir?" Ou ainda: "e se o melhor disco do ano é um daqueles de que nem ouvi falar?" E a terrível: "Não podemos voltar atrás? É que agora é que descobri mesmo o melhor disco de 2015...".

Outra ideia: o melhor disco de 2016 poderá não ser o mesmo em novembro ou dezembro deste ano e em março ou abril de 2024. O tempo tem efeitos estranhos sobre os discos: arruma uns a um canto, lança luz sobre outros. A música não se processa (no sentido de se compreender, de se apreciar em todas as suas nuances, etc) toda da mesma maneira e à mesma velocidade. Pareço o Lapalisse a falar, mas é uma verdade que por estranho que pareça nem sempre é evidente para todos.

Por isso, e ao longo dos anos, fui tentando aprender a lidar com esta angústia recorrente e decidi que eleger os discos do ano equivale apenas a resumir o ano, a tentar encontrar-lhe um retrato possível, a partir da perspectiva dos nossos ouvidos, dos nossos gostos pessoais, dos caminhos por que a profissão nos obrigou a seguir durante os doze meses anteriores. As listas de discos do ano são portas de entrada nesses fascinantes calendários musicais que também podem ser as nossas vidas. E sim: o disco deste meu ano até pode ter sido produzido em 1972 ou 1955 ou 2013. O disco do meu 2016 pode até estar ainda por chegar que ainda há umas encomendas que aguardo ansiosamente. Mas não é esse 2016 que interessa. O 2016 que interessa é aquele que nos liga a todos: nós, os que lemos a BLITZ e muita outra imprensa, musical e não só; nós os que ainda consumimos música com honesta curiosidade e diferentes, mas igualmente válidos, graus de devoção; nós os que ainda nos entusiasmamos quando é revelada uma data de edição para um novo trabalho de um artista que nos diz mais qualquer coisa do que a maior parte dos outros.

Eu, por exemoplo, dei por mim neste último par de dias a desejar que a revelação das datas de digressão dos Run The Jewels para o arranque do novo ano signifique que o RTJ3 esteja para rebentar a qualquer momento. E quem sabe se em ano em que o mundo é obigado a escolher entre Trump e Hillary não será esse o disco mais importante? É esperar para ouvir.