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Bowie Prince Dylan

O homem do ano são três. Poderia ser de outra maneira?

Há sensivelmente um ano, David Bowie anunciava novo tomo e o mundo acolheu a boa nova com júbilo. “Temos homem”. Menos de três meses depois, Blackstar chegava às lojas e este que vos escreve repetiu, sem pensar duas vezes: “temos homem”. Que disco tremendo. Dois dias depois, percebemos todos que o homem não ia ficar até tarde e até tinha deixado um bilhete. Como é comum dizer-se no “terminal das partidas”, fica a obra. Nem foi preciso esperar muito pela revisitação da mesma.

Aliás, no que diz respeito a David Bowie, a obra já vinha sendo dissecada há algum tempo. Entre 2013, ano de The Next Day (o álbum de originais que quebrara silêncio prolongado), e janeiro de 2016, houve três investidas aturadas no baú: em 2014, o relançamento da caixa Sound + Vision de acordo com a atualização de 2003, numa versão mais económica; em 2015, a compilação Nothing Has Changed, que percorre criteriosamente toda a carreira (e que, como extra, já trazia uma primeira versão de “Sue (Or In a Season of Crime)”, dando uma pista sobre o epílogo); ainda em 2015, a primeira caixa da recolha “definitiva” (entramos em território realmente interessante), Five Years (1969-1973), com os seis álbuns de originais desse período, um álbum ao vivo e uma miríade de extras sumarentos.

Após Blackstar e a morte do artista, contam-se três edições: o segundo volume da maior retrospetiva de carreira, Who Can I Be Now (1974-1976), retratando os anos “americanos” e incluindo, além do que é da praxe, o álbum inédito The Gouster; Lazarus, a banda sonora do musical levado a cena com repertório de Bowie, que conta no CD extra com os seus principais atrativos (quatro inéditos que sobraram das sessões de Blackstar, que bem melhor seriam servidos enquanto parte integrante de uma edição ampliada do último álbum); a vindoura compilação Bowie Legacy, um triplo-CD que mexe pouco na ainda tão fresca Nothing Has Changed, acrescentando-lhe sobretudo dois momentos de Blackstar – e, claro, não incluindo as derradeiras gravações acomodadas em Lazarus. Quem pensava que as compilações “físicas” iriam desaparecer com as playlists no streaming estava, até ver, enganado...

Prince era um artista prolífico e pouco dado a revisitações de matéria dada. Em vida, viu nas lojas quatro “greatest hits” do seu repertório gravado para a Warner. Nem uma música posterior a 1992, tirando o inédito “Peach”, apresentado pela primeira vez em The Hits 2, de 1993. A morte do artista em abril deste ano vem, naturalmente, justificar outras idas ao arquivo. Quem espera ansiosamente por uma reedição apetrechada do clássico Purple Rain ficará desapontado com a primeira investida no passado que se materializará em Prince4Ever, no mês que vem. O período abrangido é o mesmo de sempre e a “coisa” pára, portanto, em 1993 – atente-se que Prince “só” lançou 23 álbuns desde então. Com a gestão do espólio entregue agora a alguns dos principais figurões da indústria, é de esperar que este seja apenas um aperitivo para ganhar tempo.

O Prémio Nobel não mexeu com Bob Dylan, o homem, mas vai mexer com as contas do artista. O livro com a lírica entre 1961 e 2012 que, no site oficial de Dylan, começou por ser promovido com a referência ao prémio que Dylan (até agora) ignorou, vai ser relançado a 8 de novembro. E uma pesquisa por próximas edições devolve duas ocorrências previstas para o mesmo mês: a caixa The 1966 Live Recordings, 36 (!) CDs com os concertos da controversa digressão de há cinquenta anos, da qual se extrai para venda em separado The Real Royal Albert Hall 1966 Concert. Tudo isto com um verdadeiro, inestimável, bónus: Dylan ainda está entre nós.