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John Cale e os fantasmas, 50 anos depois

Rui Miguel Abreu antecipa o reencontro de John Cale com as canções que há meio século colocaram os Velvet Underground no mapa rock mundial

Angus Maclise foi o primeiro a desaparecer, em Katmandu. O percussionista original dos Velvet Underground, foi um verdadeiro poeta psicadélico, um desalinhado que procurou transcendência no teto do mundo e deixou muitas cassetes de delírios musicais livres. Partiu para outro plano em 1979.

Seguiu-se Nico. A cantora alemã nunca foi realmente parte da banda liderada originalmente por Lou Reed e John Cale, mas é uma presença determinante no álbum que o músico e compositor galês pretende celebrar no próximo ano, quando se cumprir meio século sobre a edição original do icónico álbum da banana. Nico faleceu em 1988, vítima de uma queda aparatosa de bicicleta durante umas férias em Ibiza.

Sterling Morrison morreu em 1995, pouco tempo depois daquela que foi a derradeira reunião dos Velvet Underground para uma breve digressão internacional, durante o ano de 1993. O guitarrista sucumbiu a um linfoma um dia depois de completar 53 anos.

O último dos Velvets a desaparecer foi, claro, Lou Reed, em Outubro de 2013. De todas as carreiras nascidas do mítico grupo nova-iorquino que se estreou com patrocínio directo de Andy Warhol, a de Lou Reed foi a mais visível e a mais celebrada, dando origem a uma importante discografia que, aliás, acaba de merecer ampla reedição.

Todos estes fantasmas teimam, de alguma maneira, em assombrar-nos o presente. A discografia dos Velvet Underground tem vindo a ser alvo de luxuosas reedições e este ano o grupo foi celebrado com uma extraordinária exposição na Philharmonie de Paris, New York Extravaganza (exposição que mereceu atenção de uma crónica anterior e que forneceu material para um portfolio publicado no último Verão na Blitz). Esse foi o pretexto original para John Cale reunir alguns amigos - incluindo gente dos Animal Collective -, e recriar o mítico The Velvet Underground & Nico na Philharmonie de Paris, há uns meses. Agora, o senhor cuja viola de arco ligava a energia primordial dos Velvet Underground às experiências de vanguarda de LaMonte Young, anunciou a recriação desse concerto em 2017 em Liverpool e em Nova Iorque. Será em Maio, o mês em que faço quase tantos anos quantos os que a estreia dos Velvets agora conta.

Em 1993 apanhei a reunião dos Velvet Underground em Londres. Em 2016 vi a exposição antológica de Paris. Não perdi igualmente, sempre que consegui, concertos de Lou Reed e John Cale no nosso país. Coleccionei - e ainda colecciono - os discos. Fui acumulando livros e revistas. Agora vou tentar não perder Liverpool. E será curioso estrear-me na cidade dos Beatles puxado pelos Velvet Underground. Mas a verdade é que cada um carrega os seus próprios fantasmas: estes são os meus.