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Cinco músicos que já escreveram contos, novelas e romances

O Nobel para Bob Dylan lembrou que quem faz canções também escreve. Mas além dos poemas e das narrativas biográficas, há músicos que já publicaram contos e romances. Aqui ficam exemplos com livros para descobrir ou reencontrar

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Muito de disse e escreveu sobre o “caso” da atribuição do Nobel da Literatura a Bob Dylan. Houve ataques. E houve elogios, o mais belo de todos pelas palavras de Leonard Cohen, quando fez notar que dar esta distinção seria o mesmo do que o de atribuir o prémio da montanha mais alta ao Evereste... Nos dias que se seguiram quase todos falaram, menos ele, o homem que afinal estava no centro do debate e optou por se manter em silêncio. Concordando ou discordando, a verdade é que há muito não se via o Nobel a ser tão debatido. Nem tanta gente a falar sobre o que os músicos, afinal, também escrevem.

O Nobel alertou, de facto, muito boa gente para o facto de haver quem, tendo a música como o seu ofício principal – que é como quem diz, que é na poética das suas canções que foca o corpo central da sua escrita -, tem também uma obra publicada que vai além do que canta.

No caso de Bob Dylan as suas edições, para além das antologias que levaram às páginas dos livros os poemas que cantou, são uma experiência de prosa poética (“Tarântula”) e um volume de memórias (“Crónicas”).

Mas há músicos que já se aventuraram inclusivamente pelos terrenos do conto e do romance. Pela ficção narrativa. E para lembrar ou revelar alguns desses casos, e assim dar mais argumentos a quem quer continuar a debater a chegada dos músicos ao universo “nobelizável” da literatura, aqui ficam cinco exemplos.

Leonard Cohen
Com uma obra literária que antecede em largos anos a sua estreia na música (tinha publicado quatro livros de poesia antes do seu primeiro álbum, o mais antigo dos quais ainda nos anos 50), continuou a publicar poesia para lá da sua música, tendo um dos livros (“Book of Longing”) servido depois de base a um ciclo de canções de Philip Glass. A obra em livro de Cohen abordou, além da poesia, o romance em duas ocasiões. A primeira com “O Jogo Preferido” (de 1963, mas só publicado entre nós em tradução de Diana Antunes para a Difel em 2002) e “Belos Vencidos” (que data de 1966, ou seja, também antecede os discos, e que chegou a nós em 1987 pela Relógio d’Água, numa tradução de Margarida Vale de Gato).

Nick Cave
Outro dos grandes poetas nascidos na cultura pop/rock, Nick Cave foi criando em paralelo uma obra narrativa que tem expressão não apenas nos livros mas também já no cinema. Depois de “King Ink” de 1988, livro no qual juntava poemas e alguns textos dramatúrgicos, lançou “E O Burro Viu o Anjo” em 1989, livro que teve edição portuguesa em 1992 na Estampa, traduzido por Maria Helena Vascon e Sérgio Moreno. Um segundo romance, “A Morte de Bill Munro”, chegou 20 anos depois, tendo logo edição nacional nesse mesmo ano de 2009 pela Objetiva, com tradução de José Couto Nogueira. O livro serviu de base a uma adaptação ao cinema por John Hillcoat, para quem Nick Cave assinou outros dois argumentos.

Chico Buarque
Outro dos grandes poetas da música do nosso tempo, e uma das figuras maiores da música popular brasileira, tem uma vasta obra publicada em livro que transcende os trabalhos ligados aos seus discos. Além de peças de teatro e de textos de literatura infantil, a sua bibliografia dá um passo importante quando publica, em 1974, “Fazenda Modelo”, uma novela. A estreia no romance chega em 1991 com “Estorvo”, desde então tendo publicado outros quatro: “Benjamin” (1995, editado entre nós pela Companhia das Letras), “Budapeste” (2003), “Leite Derramado” (2009) e “O Irmão Alemão” (2014). A sua obra em romance está toda publicada em Portugal, em títulos lançados pela D. Quixote, pela Companhia das Letras e pela Presença.

Sérgio Godinho
Outro dos grandes poetas da língua portuguesa com obra principal até aqui essencialmente dada a conhecer através da música, Sérgio Godinho desde cedo alargou a outros espaços a sua relação com a escrita. Tem publicados livros infantis e também de crónicas. Em 2014 este criador de tantas histórias e personagens apresentou, pela Quetzal, “Vidadupla”, um livro de contos. Agora prepara a edição de um primeiro romance. Com o título “Coração Mais Que Perfeito” chegará às livrarias no início do próximo ano.

Ryan Adams
Entre o panorama punk e indie rock não faltam casos de músicos que experimentaram já a ficção narrativa em livro, em exemplos que ainda não tiveram edição entre nós. Louise Werner, das Sleeper, é um exemplo. Colin Meloy, dos Decemberists, será outro. Richard Hell, veterano do punk nova-iorquino, tem extensíssima bibliografia publicada. Mas uma promessa a seguir com atenção é a de Ryan Adams. Em 2009 estreou-se nos livros com “Infinity Blues”, um volume de poemas. E no mesmo ano apresentou, em “Hello Sunshine”, uma nova coleção de textos, entre os quais surgiam contos... Haverá ali outras possibilidades a explorar mais adiante?

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