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O Nobel mudou, Dylan não

“Não sei se o Prémio Nobel se dedica à arte pela arte (...), mas aposto dobrado contra singelo que há uma dimensão poética na atribuição deste prémio. E política". A opinião de Miguel Cadete

Não sei o que a maior parte das pessoas pensa do Prémio Nobel da Literatura atribuído a Bob Dylan, mas sei que gerou um vendaval capaz de pôr meio mundo a discutir música e literatura. Não imagino o que acham os que acham que Dylan não é literário; mas sei que há quem considere que literatura são livros. E que livros são romances. E que a música — e a poesia e o teatro? — não podem ou não devem ser Prémio Nobel da Literatura. Não creio que uma canção, por si só, seja literatura; mas a verdade verdadinha é que o cânone foi derrotado, até porque no ano passado este mesmo prémio foi entregue a uma jornalista bielorrussa, Svetlana Alexievich, devido aos seus “escritos polifónicos”.

Não sei o que acham todas as pessoas do ‘meio literário’. Mas sei que partiu dos escritores e dos editores e de muitos outros que trabalham na indústria do livro o anátema sobre o Nobel de Dylan. Não sei o que podem ganhar, ou perder, com isso, mas sei que na indústria da música — pude confirmá-lo — toda a gente considerou a escolha mais do que justa. Sei também que, para muitos, Amália não devia ter cantado os grandes poetas portugueses.

Não sei se Philip Roth ou Don DeLillo deviam ter ganho, no pressuposto de que se pretendia premiar um autor norte-americano. Mas sei que além de Dylan há outros compositores de canções que podiam ter ganho, como o canadiano Leonard Cohen ou o brasileiro Chico Buarque.

Não sei se há assim tantos escritores de canções que o mereçam. Mas sei que há muitos capazes de encerrar numa canção a vida, a morte, e o que se encontra para lá disso, com muito mais categoria do que a obra completa de muitos romancistas. Sei que alguns desses romancistas já ganharam o Prémio Nobel.

Não sei se o Prémio Nobel se dedica à arte pela arte. Pelo menos não é isso o que diz o seu fim último: premiar “a mais excelsa obra produzida com um objetivo ideal” (tradução livre) mas aposto dobrado contra singelo que há uma dimensão poética na atribuição deste prémio. E política.

Não sei porque Kafka, Proust, Tolstoi ou Joyce nunca ganharam. Nem Pessoa, que em vida só publicou um livro e ainda por cima por favor ou cunha. Mas sei que Churchill recebeu o Nobel da Literatura e não o da Paz. E que Obama, por seu lado, recebeu o da Paz e não gerou tanta controvérsia quanto Dylan.

Não sei se a literatura são livros. Mas sei que a Academia do Nobel pode querer livrar-se da pressão das editoras livreiras. Afinal, o Nobel da Literatura é o único entre os demais prémios atribuídos pela Academia Sueca que gera vendas quase instantâneas.

Não sei se este prémio é justo. Ou mesmo se há prémios justos. Mas sei que Bob Dylan deu cabo da voz bonita que tinha e dos arranjos encantadores das suas canções ao longo das digressões em que se empenhou nas últimas décadas. Também sei que na quinta-feira não atendeu os telefonemas da Academia. O Nobel mudou. Ele não.

Originalmente publicado no Expresso de 15 de outubro