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As canções de Dylan são literatura? E a terra é mesmo redonda?

Rui Miguel Abreu ainda às voltas com o homem que revisitou a autoestrada 61 e as ondas de choque lançadas sobre o mundo pela Academia Sueca

Reza o famoso adágio que tantas vezes me vi forçado a citar ao longo da minha carreira que “escrever sobre música é como dançar sobre arquitetura”. Pergunto-me se atribuir um Nobel da Literatura a um músico será como distinguir um pintor com um Óscar ou um arquiteto com um Grammy...?

O erro fundamental do tal adágio que, vejo-me agora esclarecido, é atribuído ao actor Martin Mull num fascinante artigo do Quote Investigator, está em equacionar a escrita neste contexto enquanto arte equivalente à música, dança ou arquitetura quando, na verdade, escrever, neste caso, é pensar sobre o papel, traduzir em pensamento crítico aquilo que se ouve (ou se vê, ou se sente, etc).

No New York Times, Anna North – que tem o cuidado de nunca mitigar os méritos claros de Bob Dylan – apresenta convincentes argumentos para defender que o Nobel não deveria ter sido atribuído ao músico: “Bob Dylan”, conclui North, “não precisa de um prémio Nobel de Literatura, mas a Literatura precisa de um Prémio Nobel. E este ano não vai ter um”.

Do lado de cá do Atlântico, no Guardian, Richard Williams advoga o contrário e defende a justeza de um prémio atribuído a alguém que “se embrenhou na teia e trama da música popular americana”.

A arte de Dylan, já o percebemos, foi a de fundir palavras e melodias, sentidos e ritmos, imagens poéticas e impulsos elétricos de uma forma única, que traduziu um tempo, que por momentos pareceu opor-se a um determinado passado, mas que, como argumenta Williams, acabou por se tornar uma marca da passagem do próprio tempo.

O que se discute, portanto, é se a canção, esse veículo escolhido por Dylan para transmitir ao mundo as suas ideias e pensamentos e visões e delírios e sonhos, é ou não literatura. Não sou, nem de perto nem de longe, um perito em literatura, mas julgo que a memória não me trai e que guardo das aulas de história da literatura um recuo até aos tempos dos trovadores e o apontar das cantigas de amor (“Precious Angel”), das de amigo (“Ballad for a Friend”) e ainda das de escárnio (“Don’t Think Twice, It’s All right”) como exemplos primevos de escrita literária. Bem sei que uns séculos bastaram para nos convencermos de que a Terra não era plana, como certamente acreditariam os trovadores, mesmo tendo que palmilhar montes e vales, mas desconhecia esse reescrever dos cânones da historiografia literária que, de acordo com muito do que li nos últimos dias, parece agora, afinal de contas, excluir a canção do seu âmbito.

A música, caros céticos, relaciona-se com o cinema, como a escultura com a fotografia, como a dança com a arquitetura, o teatro com a pintura, a poesia com a canção, etc, etc. As possibilidades são tão infinitas como as do pensamento. E às vezes é difícil manter tudo arrumado em caixinhas estanques. Claro que se pode escrever sobre música, dançar sobre arquitetura, pintar sobre poesia, fotografar sobre teatro. E claro que se podem atribuir prémios Nobel da Literatura ao Bob Dylan.

Se ele se vai dar ao trabalho de o ir aceitar é que já é outra história.