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Balada para um Nobel

A atribuição do Nobel da Literatura a Bob Dylan gerou um debate saudável e vivo. Abriu um precedente ousado (e oportuno) e pôs meio mundo a falar sobre música e literatura... Agora nada como regressar a Dylan. E tentar compreender a escolha. E a resposta está a soprar no vento, há já muitos anos...

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Há muito que um Prémio Nobel não era matéria prima para tanta e tão viva discussão. E ainda bem, valendo os prós e os contras (e até mesmo os assim assim) como expressão de uma relação da comunidade para com a mais importante distinção mundial na área da literatura que não teve par nos últimos tempos. Nada contra as distinções de nomes menos conhecidos chegados de literaturas menos divulgadas, porque foi assim que, ao longo da história deste prémio, muitos acabámos a descobrir autores que, sem esta distinção, poderiam passar longe da nossa atenção. Mas em 2016 a Academia sueca escolheu aclamar um nome que é tudo menos desconhecido. Foi uma das vozes maiores de uma geração. Um ícone americano e que se fez das mais influentes figuras da cultura da segunda metade do século XX. E, sim, um grande poeta.

Se a atribuição em 2015 à escrita de não-ficção de Svetlana Aleixievich já tinha mostrado sinais de abertura a outras frentes da escrita por parte do comité que decide este prémio, aquele que este ano escolheu Dylan revelou ser ousadia ainda maior. E o mundo reagiu. E que bom que assim foi, repito.

Surpresa absoluta? Nem por isso... Há muito que o nome de Dylan surgia entre as apostas que precedem cada atribuição do Nobel... Os primeiros sintomas de que algo poderia um dia acontecer já estavam ali, ao lado de nomes como os de Philip Roth, Haruki Murakami e tantos outros mais. E, mesmo sendo uma distinção de âmbito menos globalizado na sua mediatização, o Prémio Príncipe das Astúrias na área das Letras tinha já, em 2011, escolhido Leonard Cohen que, é bem verdade, seria outra figura a quem o Nobel da Literatura assentaria quem nem uma luva. O mesmo dizendo de um Chico Buarque, aí com o (nosso) valor acrescentado de representar uma eventual nova distinção para a escrita em língua portuguesa. Mas aqui ficou aberto o precedente... E as possibilidades agora alargam-se.

Se Dylan é uma figura maior no mundo da música, tendo uma obra que partiu de raízes da folk (entre heranças que vão dos tempos de um Woody Guthrie aos de um Pete Seger) para depois lhes juntar os blues e a eletricidade do rock’n’roll (numa ocasião que deu brado), foi na verdade pelas palavras que a sua voz chegou mais longe. As palavras que cantou em inícios dos anos 60 encontraram eco numa geração que naquelas letras (podemos dizer poemas) se reconheceu, nelas encontrando a identificação com Dylan através de todo um quadro de lutas então em jogo, das batalhas pela igualdade de direitos aos sonhos de paz. E depois a escrita sonhou mais longe, criando personagens, usando metáforas, imaginado narrativas tal e qual o faz quem, pela palavra, traduz o seu mundo, o seu tempo, o seu lugar.

E se não bastassem os poemas, que estão todos eles reunidos em diversas antologias (inclusivamente entre nós, em traduções publicadas em dois volumes pela Relógio d’Água) e foram já tema de inúmeras teses académicas na área dos estudos literários, tenhamos em conta os livros. Sim, os livros. Do ensaio poético de Tarântula ao brilhante primeiro volume das Crónicas que, ao que parece, terão uma segunda parte em redação neste momento...

A atribuição de um Nobel a uma figura da cultura popular é importante sinal dos tempos. Vivemos num momento em que os muros que antes separavam artes, formas e géneros foram derrubados por modos de comunicar e entender outros sentidos de desafio, de diálogo. Na era da comunicação global, é dessas trocas que vive o que de mais vibrante se faz em várias frentes da invenção artística.

O prémio atribuído a Bob Dylan é também o reconhecimento de uma produção cultural significativa que refletiu, desde a autora dos anos 60, sobre as vivências sociais e políticas, ou seja, os cenários do universo ao redor de um autor que, depois, conseguiu vencer o impacte estrondoso da sua produção nesses dias de juventude e, através das décadas seguintes, continuou a construção de uma obra que, sobretudo depois do aclamado Time Out Of Mind (1996) o tem mostrado a viver uma nova etapa de incrível fulgor criativo.

E se for aqui preciso evocar cauções, então recordemos figuras como as de Kerouac, Ginsberg ou Burroughs que, como Dylan (que influenciaram, mas de quem eram contemporâneos), criaram novos espaços de escrita e de reflexão para a cultura norte-americana e para a língua inglesa.

Voltemos então a Bob Dylan. Escutemos os seus discos. E caminhemos entre os seus poemas... E regressemos também à sua brilhante autobiografia pela qual passam retratos expressivos de uma América que, dada a errância característica da vida de um músico, ele conheceu de lés a lés. O Nobel juntou agora aos seus não só um grande escritor de canções. Mas um vulto maior da escrita do nosso tempo. Não é bom?

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