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De bestas a génios

Há 30 anos, três miúdos brancos, judeus de Nova Iorque, trocaram as guitarras punk por gira-discos hip-hop e assinaram uma revolução de excessos. Rui Miguel Abreu lembra-se bem

Há dias, um amigo de Coimbra que mantenho desde os tempos de adolescência, enviou-me fotos das páginas de um caderno que encontrou durante arrumações. Aí listava os títulos dos discos que juntos e com mais alguns amigos encomendávamos de Inglaterra com um espírito cooperativo bastante pronunciado – não se repetiam títulos porque a ideia era que todos os álbuns rodassem por todas as casas.

A lista incluía os Queen - que abandonei rapidamente - mais David Bowie, Lou Reed, Velvet Underground e Laurie Anderson, do meu lado, e Bauhaus, Clash e Cure, entre outros, do lados meus amigos. Eram tempos de afirmação de identidade e a música era a ferramenta mais eficaz para essa construção.

Paralelamente à descoberta do punk, da música que o precedeu e da que lhe sucedeu, as audições da Discoteca do Adelino Gonçalves na Rádio Comercial iam revelando outras avenidas que também gostava de percorrer, coisas mais dançáveis, dos New Order aos Bomb The Bass, passando pelos Art of Noise ou pelos Beastie Boys.

Nesse tempo, para manter a credibilidade punk/alternativa junto dos meus amigos, não era conveniente fazer grande alarido de paixões por coisas mais dançáveis, mais negras, mais disco de bola de espelhos, mais electro de jogo de arcada, mais hip-hop de caixa de ritmos e rimas afiadas. Mas Licensed to Ill mudou tudo isso.

Quando vi pela primeira vez o clip para “(You Gotta)” Fight For Your Right (To Party!)” e, algum tempo mais tarde, o de “No Sleep Till Brooklyn” não tive dúvidas: estava ali a ponte perfeita entre dois universos que me interessavam e a alavanca ideal para desemperrar o ceticismo de alguns amigos menos compreensivos em relação a alguns dos meus gostos, de Ll Cool J a Run DMC.

Mal sabia eu nessa altura, pois claro, que os próprios Beastie Boys já tinham atravessado essa ponte, estendida entre o punk e o hip-hop. O tal amigo do caderno meticuloso foi o primeiro a comprar um disco dos Beastie Boys, o maxi de “Hold It Now (Hit It)” que tenho gravado de forma permanente na memória, cada palavra, cada scratch, cada soluço da 808, tantas vezes que o ouvi. Mas eu não demorei a seguir-lhe o exemplo e o álbum de estreia dos Beastie Boys foi um dos primeiros que comprei quando cheguei a Lisboa, no final de 1987.

Trinta anos passaram e a estreia dos Beasties merece agora uma oportuna reedição. É possível ver na discografia dos Beastie Boys de King Ad Rock, de Mike D e do malogrado MCA uma metáfora para a ideal condição humana de constante evolução e crescimento: os rapazes bestas de bravado adolescente do primeiro álbum, que explodiram no mundo enquanto vomitavam cerveja e brandiam gigantes pénis de plástico em palco, cresceram, tornaram-se cavalheiros pacifistas, donos de uma integridade artística e moral rara no universo da música com pronunciado impacto comercial: apoiaram causas nobres (Tibete!), divulgaram estilos de vida alternativos (budismo, vegetarianismo), defenderam a paz, tornaram-se sérios conhecedores de vinho tinto e recusaram sempre a utilização da sua música em publicidade. Quando Adam Yauch faleceu em 2012, os outros dois companheiros de grupo fizeram saber que nunca trairiam a sua memória voltando ao activo. Até agora cumpriram a promessa e nada aponta para que a situação se inverta.

Trinta anos depois, Licensed to Ill continua com o mesmo vigor: exercícios de colagem de guitarras de AC/DC, baterias de Led Zeppelin, flows gritados na boa e velha tradição punk e muitos kicks da melhor caixa de ritmos de sempre que além de continuarem a ter o mérito de facilmente nos arrancar de cadeira nos ensinam a lição de que a vida, a boa, a que vale a pena ser vivida, é sempre a subir.

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