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Quem escreveu as minhas canções?

Foi há 11 anos que Andrew Bird escreveu … The Mysterious Production of Eggs, o álbum que o deu a conhecer ao grande público. Hoje, o norte-americano mal se reconhece naquelas canções

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Parece ter sido ontem e, ao mesmo tempo, tenho uma noção bastante aguda do tempo que passou. Em 2005, Andrew Bird lançou aquele que era já o seu terceiro álbum mas que, em Portugal e suponho que noutros territórios, acabou por servir de porta de entrada para o seu mundo muito peculiar. Ainda que possamos enquadrá-lo no rótulo bastante amplo de singer songwiter (a tradução para português, cantautor, causa sempre alguma estranheza), o nativo de Chicago chegava a este ofício com um conjunto de ferramentas peculiar. Ao invés da guitarra, o violino era a sua matéria-prima de eleição; à voz bem moldada, o rapaz juntava um assobio ao qual o predicado mavioso não faz justiça, e as letras escapavam a sete pés dos clichés do género, destacando-se pelo surrealismo e pela originalidade.

11 anos volvidos, Andrew Bird continua a lançar discos – Are You Serious, lançado no início este ano, servirá de pretexto aos concertos em Lisboa e no Porto, em novembro – e a visitar o nosso país, não só para tocar ao vivo como para gravar (parte da canção «Puma», sobre a luta da sua mulher contra o cancro, foi registada no Aqueduto das Águas Livres) e para visitar os muitos amigos que por cá fez e soube manter.

É mais um caso de empatia entre um músico internacional e o público português que, nacionalismos bacocos aparte, acarinha fielmente todos aqueles artistas que, por alguma razão, lhe caem no goto.

Na semana passada, tive a oportunidade de trocar umas palavras com Andrew Bird, por telefone. Agora a viver em Los Angeles, que considera “muito mais saudável” do que Nova Iorque, onde esteve antes, ou do que a sua cidade-natal, o homem de “Tables and Chairs” refletiu com pertinência sobre o seu disco-revelação. Andrew Bird & The Mysterious Production of Eggs, esse tal terceiro álbum que tantos dos seus fãs recordam com afeto, continua a ser revivido nos concertos, mas parece-lhe já obra de uma outra pessoa.

“Estou sempre a voltar a ele, e é quase como se estivesse a fazer versões de outro artista”, confessou. “Certa vez falei com o Randy Newman sobre isso. Ele contou-me que olha para as suas canções mais antigas e pensa: mas como é que eu fiz aquilo? Quem era o tipo que escreveu aquela canção?”, contou, referindo-se ao veterano da música americana. “É muito estranho ouvir as minhas coisas antigas e pensar no sítio onde as escrevi e porquê”.

Uma das canções de … Mysterious Production of Eggs que continuará a ser obrigatória nos seus concertos é “Fake Palindromes”. Recordemo-la aqui, numa versão deste ano e numa outra gravada há quase dez anos, com a certeza de que as eventuais rugas lhe assentam bem.