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Zambujo canta Buarque: estava escrito nas estrelas

A 21 de outubro, o português lança Até Pensei que Fosse Minha, uma homenagem ao brasileiro. E nós já ouvimos

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Uma das ferramentas mais curiosas dessa rede social onde tantos de nós passamos os dias são, a meu ver, as “memórias do Facebook”. Através desta aplicação, somos diariamente presenteados com uma boleia numa máquina do tempo que nos recorda o que escrevíamos há um, dois ou mais anos (no meu caso, as recordações mais remotas são de 2009, ano em que me tornei mais uma súbdita do reino de Zuckerberg). É assim que reparo que, afinal, este calor outonal não é inédito (há quatro anos, neste dia, até fui à praia) ou que há discos que, volvido um ano , continuam em repeat obsessivo (Ryan Adams a cantar Taylor Swift é, aparentemente, o campeão de posts musicais dos últimos 12 meses).

Há quatro anos, por outro lado, escrevia entusiasmada sobre um concerto improvável: o de António Zambujo no pequeno espaço Sou, no bairro dos Anjos, em Lisboa. Por cinco euros, lembro-me bem mas agradeço ainda assim a recuperação ao Facebook, sentei-me com mais algumas dezenas de espectadores a poucos metros (centímetros?) do cantor alentejano que, na altura, passeava com elegância as canções do maravilhoso Quinto.

Num post de 30 de setembro, escrito pouco antes da uma da manhã, escrevia eu: «Poucas vezes a expressão “o silêncio é de ouro” fez tanto sentido como no concerto desta noite na sala, castiça e acolhedora, do espaço Sou. Nem falo só do silêncio, tão valioso porque já tão raro, do público, mas sim dos silêncios que permeiam a música do artista que com tanta generosidade, talento e humor se apresentou ali, a dois passos de nós».

«Essa forma leve e porosa de tocar e cantar, acentuada naturalmente por estar sozinho em palco com o “violão”, notou-se tanto nas canções do mais recente Quinto, como nas mais antigas, nas surpresas e nas versões», acrescentava, para depois concretizar: «A fechar, “Foi Deus” foi a versão quase frágil, feminina, do portento de Amália, mas a abrir o serão é que os corações ficaram em suspenso: nunca pensei ouvir esta “Valsinha” ao vivo e nem me importo que não tenha sido o Chico a cantar-ma».

Acarinhado no Brasil desde que Caetano Veloso lhe deu uma forcinha com um elogio sentido no seu blogue, António Zambujo sempre se mostrou devoto de Chico Buarque e agora, quatro anos depois de, naquela noite de emoções tão simples como preciosas, fazer de “Valsinha” um pouco sua, prepara-se para lançar Até Pensei que Fosse Minha, um disco de homenagem ao músico brasileiro.

Ainda na ressaca da inacreditável maratona de coliseus na companhia de Miguel Araújo, o cantor regressa agora ao aconchego da música saborosamente solitária, com espaço para tudo – até para uma participação do próprio Chico Buarque, em «Joana Francesa», com a voz amadurecida do mestre capaz de fazer arrepiar o couro cabeludo dos fãs mais precavidos.

O disco abre com «Futuros Amantes», outro clássico do carioca, e é necessária alguma ginástica mental para, à beirinha da memória do original, ouvido vezes sem conta ao longo de anos a fio, encontrar espaço para a nova versão.

Até ao final do disco, que se despede precisamente com «Valsinha», o tempo joga contudo a favor da ideia de que este álbum – com a sua atenção carinhosa aos pormenores, os seus arranjos de filigrana e a voz de Zambujo feita instrumento de discreta sapiência – estava, realmente, escrito nas estrelas. E como foi bom avistar essa constelação pela primeira vez, naquela noite – também quente – de outubro de 2012.