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Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Quando os músicos chamam a si a tarefa de contar as suas narrativas

Mais do que uma moda do momento, a publicação de autobiografias está a mudar a forma como tomamos consciência das histórias pessoais e profissionais dos músicos. Bruce Springsteen é o mais recente herói pop/rock a dar-se a conhecer melhor pelas suas próprias palavras

Algo está a mudar na relação dos músicos com a sua forma de nos fazer chegar as suas narrativas pessoais. E quer pelo cinema – como recentemente vimos no magnífico filme que nos apresentava o novo álbum de Nick Cave e o contexto pessoal em que estas canções ganharam forma – quer pelos livros, há um volume crescente de retratos na primeira pessoa a começar a ocupar lugar nas nossas vidas.

Não é novidade a ideia de lermos, na prosa de um músico, o relato pessoal da sua visão dos factos, figuras e ambientes que moldaram a sua personalidade e obra. E num passado menos recente já encontramos, impressas em livros, narrativas autobiográficas que foram bem para além do que muitas entrevistas, críticas e artigos de fundo nos deram a ler ao longo de anos a fio. Foi assim com as palavras de Nina Simone. Ou as de Marianne Faithfull, num volume publicado nos anos 90 no qual ela me disse que estavam as respostas a todas as questões mais indiscretas que lhe quisessem colocar, pelo que de então em diante esperava que as entrevistas falassem das coisas novas que estava a fazer. Neil Young já nos deu a ler sobre a sua vida, mas também sobre a sua paixão por automóveis. Entre nós, por exemplo, coube a Manuel Faria um belo retrato do que foi a história dos Trovante. E muitos concordarão comigo se vos disser que, por muitos volumes que sejam redigidos sobre Miles Davies, será difícil bater o efeito da descoberta de si mesmo que fazemos através da sua autobiografia.

Mas nos últimos anos as propostas de volumes autobiográficos sucederam-se a um ritmo impressionante. Bob Dylan mostrou, num primeiro volume de “Crónicas” como a verve literária com que aborda a escrita de canções também anima a prosa (mais não fazendo do que confirmar nele um mais do que justo candidato ao Nobel da literatura). Patti Smith, que era uma autora já publicada em livro antes mesmo de ter gravado um primeiro disco, deu-nos já dois belíssimos livros autobiográficos pelos quais cruza memórias pessoais e artísticas, não fechando as portas às experiências mais pessoais vividas quer ao lado de Robert Mapplethorpe quer do seu marido, Fred ‘Sonic’ Smith. John Taylor deu-nos, nas suas palavras, um olhar sobre o impacte da fama e a ressaca que gerou, nos dias de glória mundial para os Duran Duran nos anos 80. Karl Bartos levou-nos, pelas suas palavras, ao coração (na verdade pouco conhecido de tão mitificado que se apresenta) do universo dos Kraftwerk. E Morrissey, numa “Autobiography” que não teve senão edição em língua inglesa, colocou-nos perante a visão que tem de si mesmo e da sua obra (sobretudo a criada com os The Smiths), revelando igualmente uma escrita literária que antecipava logo ali a possibilidade de uma estreia na ficção (que aconteceu pouco depois).

Agora chega a vez de escutarmos a voz de Bruce Springsteen pelas palavras que ele mesmo escreveu. Chamou ao seu livro “Born To Run” (o que dá desde logo a noção de esforço continuado de uma obra que nem é estática nas formas e ideias nem deixa o músico estar muito tempo no mesmo lugar) e nele encontramos, com frontal franqueza, uma série de relatos cronologicamente ordenados de uma vida que, pelas canções, dele fez um ícone social e político da América mais liberal.

Apesar das muitas histórias pessoais e profissionais que acabam por ter expressão em canções, o livro dá também conta da progressiva formação de uma consciência social e política, não poupando críticas a símbolos do poder mais conservador tratando, como se costuma dizer, “os bois pelos nomes”. Há aqui ecos de momentos difíceis, de lutas pessoais, políticas e laborais. Mas há também episódios de um efusivo bom humor. Como aquele em que nos conta como foi, para si, a descoberta dos Beatles. Ele era um rapazinho na América dos sessentas quando as canções dos fab four começam a invadir as ondas da rádio. Compra como primeiro disco aquele EP com “My Bonnie”, por Tony Sheridan, que tinha os Beatles como banda de apoio. E confessa que não fica particularmente entusiasmado. Mas é depois, ao encontrar a capa de Meet The Beatles, que descreve como o Mount Rushmore do rock’n’roll, que dá por si a viver a epifania de quem, de um instante para o outro, materializa visualmente o que as músicas na rádio não lhe tinham dado a ver: os cabelos! Aqueles cabelos. E naquele momento, o pequeno Bruce – que nunca refere que há quem lhe chame ‘The Boss’ – decobriu um mundo novo. Mal imaginando ainda que, um dia, seria um protagonista dessa mesma história.