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Adeus Kashif!

Músico que marcou a paisagem musical da primeira metade dos anos 80, apontando caminhos à pop e ao r&b, desapareceu há alguns dias. Rui Miguel Abreu despede-se

A mais dura das faturas da passagem do tempo é o desaparecimento das pessoas que tudo fizeram, afinal de contas, para o moldar, para o ultrapassar. Quando gente como David Bowie ou Prince abandona este plano, claro que há lamentações coletivas e bastante sonoras mais do que justificadas. Foram artistas como Bowie ou Prince que definiram o tempo em que vivemos, que escreveram as canções que servem de banda sonora para as gerações.

Acontece que por cada um destes gigantes há sempre dezenas de obreiros bem mais modestos cujos contributos para o devir dos tempos da música podem ser igualmente significativos apesar de serem menos celebrados numa escala pop. Faz sentido que assim seja: se todos funcionassem no mesmo plano não haveria espaço para mitos e todos poderiam ser heróis, mesmo que apenas por um dia.

Nos últimos meses o mundo perdeu alguns desses gigantes menores, gente como Alan Vega ou Don Buchla, visionários, cada um à sua maneira, que ofereceram incomensuráveis contributos para a música - ideias, sons, discos, invenções, instrumentos - mas que quase sempre se despedem deste plano no meio de um quase total silêncio que se pode medir pela distância a que se posicionavam do centro das coisas pop.

Há dois dias desapareceu outro desses heróis mais ou menos secretos: Kashif passou por uma das minhas bandas de funk favoritas dos anos 70, os B.T. Express de "Do It ('Til You're Satisfied)", mas afirmou-se no arranque dos anos 80 como um dos principais tradutores daquela modernidade urbana que a América tão bem exportou no seu cinema e televisão mais pop (Beverly Hills Cop, Miami Vice, etc).

Os primeiros álbuns de Kashif - o trabalho homónimo de 1983 e ainda Send Me Your Love de 1984 e Condition of the Heart de 1985 - são exemplos perfeitos de uma pop negra que dava então passos de gigante em direcção à modernidade, abraçando a plenitude das possibilidades tecnológicas para a partir daí erguerem um som feito em iguais medidas de seda melódica e brilho electrónico, apontando o caminho para a pop que no topo da montanha vendia milhões, de Michael Jackson a Whitney Houston, e antecipando a revolução R&B dos anos 90, a cena New Jack Swing e o trabalho de estetas como Babyface em etiquetas como a LaFace.

Kashif desapareceu com apenas 56 anos, deixando para trás um legado importante e pouco celebrado, tendo nas últimas décadas abraçado o ensino e produção musical e o trabalho em comunidade de recorte beneficiente.

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