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Joana Barra Vaz

2016, um ano no feminino

De Cristina Branco a Joana Barra Vaz, o ano tem sido fértil em bons discos cantados em português, por senhoras e meninas

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Não é de hoje o fenómeno: há muito que as vozes femininas brilham na música feita em Portugal, revelando-se autênticas âncoras do renascimento do fado, por exemplo, mas não só. Este ano, cantoras e compositoras como Francisca Cortesão e Mariana Ricardo provaram mais uma vez a facilidade com que burilam canções dentro do terreno indie-folk (Slow, o mais recente disco de Minta and the Brook Trout, é aquilo a que os anglo-saxónicos chamam de grower); noutras áreas, porventura mais próximas da world music, as surpresas também não cessam de chegar.

Já aqui falámos do impressionante Menina, o novo manifesto de Cristina Branco, que acaba de chegar às lojas, e da maravilhosa frescura de Selma Uamusse, a cantora que nos habituámos a ver ao lado de Paulo Furtado, nos Wraygunn, ou de Rodrigo Leão, nalguns concertos, e que em breve se deverá estrear nos álbuns em nome próprio, com canções singulares que honram as suas raízes moçambicanas.

Também este ano, Capicua estendeu os ramos de uma escrita cada vez mais abrangente, lançando com Pedro Geraldes o disco-livro Mão Verde, dedicado às crianças mas, faz questão de salientar, com a habitual acutilância, não necessariamente infantil. Até ao final do ano, deveremos ter novidades de outros nomes cintilantes do nosso país. Enquanto as mesmas não nos chegam aos ouvidos, louvemos Joana Barra Vaz, que no final desta semana lança Mergulho em Loba, uma surpresa a todos os níveis.

Foi quando regressei de umas breves férias que encontrei na secretária este disco de capa branca, com um perfil feminino que, quase da mesma cor, se sente (passando a mão) mais do que se vê. Coloquei o CD a tocar no computador e foi como se a semana de passeios & sol de que acabara de regressar se prolongasse um pouco mais: mostrando um cuidado extremo com cada canção, Mergulho em Loba é, ao mesmo tempo, de uma fluidez rara, viajando de faixa para faixa com uma leveza fácil que só pode ter dado muito trabalho.

Da voz doce de Joana Barra Vaz aos arranjos areados e luminosos, difícil é destacar uma só canção. O mar, diz a cantora e compositora, foi a grande inspiração de Mergulho em Loba, o que explica que o disco espelhe com tanta transparência o sentimento de evasão estival de que, por esta altura, já sentimos saudades. Em entrevista ao Público, a portuguesa menciona como referências José Afonso, Feist, Beck ou Sílvia Perez Cruz; sugestionada pelo ano que estamos a ter, sinto também, por aqui, ecos de Selma Uamusse (cujo violoncelista, Ricardo Jacinto, toca com Joana) e sobretudo de Aline Frazão, outra deliciosa voz da música feita em Portugal – com a cabeça no mundo – nos últimos anos (e que em outubro estreia um novo espetáculo).

Ainda que a voz continue a ser o «instrumento» da maioria das mulheres no pop/rock, lentamente começamos a vê-las noutros postos: na próxima sexta-feira, por exemplo, chega às bancas mais uma edição da revista BLITZ, com entrevista aos Galgo. A banda de Lisboa, que editará o seu primeiro álbum pela BLITZ Records, tem em Joana Baptista a baterista, e admite que a surpresa que a situação causa é geralmente benigna. «Às vezes, quando chegámos, as outras bandas ou os técnicos de palco perguntam quem é que é o baterista. E a Joana põe o dedinho no ar», contam. «Mas tudo na boa!».