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E tu, o que é que andas a ouvir? (versão outono tímido)

Uma mistura de novidades com velharias, pois claro. Ou os ziguezagues estranhos que ligam Jack White a T. Rex, Hinds e Las Kellies a Blondie e Wire ou Divine Comedy a Left Banke. Contém ainda erupções inesperadas de Hole, Ramones e Desmond Dekker

De Stijl foi o segundo álbum dos White Stripes que ouvi (logo a seguir a White Blood Cells) e, até hoje, aquele de que gostei mais. Jack White vai ao baú do magnífico álbum de 2000 buscar duas pérolas para a recente antologia acústica. Uma, menos óbvia, é esta. Coisa mais linda.

No verão passado chegaram-me duas edições de T. Rex que ajudam a completar o mapa de Marc Bolan, glamorosa personagem desaparecida em 1977, aos 29 anos. Sobre elas (Born to Boogie, o filme sobre a "T. Rextasy" de 1971/72 realizado por Ringo Starr, e Unchained, oito volumes de outtakes e versões alternativas) dará conta a secção de música da revista do Expresso de amanhã. Para desfrute visual, aqui fica o trailer.

As espanholas Hinds esmifram - e fazem muito bem - o seu suculento álbum de estreia, Leave Me Alone, lançado há nove meses. "Bamboo" é das canções mais relaxadas, mas este vídeo animado, em rústico esplendor gore, não nos deixa descansar.

Vêm da Argentina, são três, e mesclam garage rock com shoegaze, dub e espinhos pós-punk. "Summer Breeze", ajustada à estação que (não) nos abandonou, é mais dreamy que outra coisa. Vamos ouvir falar delas.

"Heart of Glass", impoluto hino disco-new wave de 1978, nasceu assim, meio reggae e com uma Deborah Harry em estado de graça. Sim, parece cosmética revivalista de 2016, mas o calendário marcava 1975. A sério.

A melhor banda a sair do turbilhão punk, os Wire lançaram álbuns fabulosos quando todos os seus contemporâneos começavam a esmorecer, a não saber regressar ou, literalmente, a morrer - fizeram-no em pleno século XXI (vão em seis discos desde 2003). Serão, contudo, sempre lembrados por "I Am the Fly" ou "Outdoor Miner", buriladas naquele essencial final dos seventies. Não há mal algum nisso, mas esquecida ficará quase sempre a primeira reunião, empreendida em 1985, que três anos depois conheceu capítulo inesquecível com esta súmula de uns certos anos 80. É para ouvir em repeat.

E quando pensamos que é desta que Neil Hannon (isto é, Divine Comedy) vai fazer aquele álbum insosso que prenunciará toda uma irreparável decadência, ele sai-se com mais uma das "de sempre". Malvado.

E já que se fala de Divine Comedy, a pop barroca nasceu nos anos 60. Provavelmente aqui.

Antes da caricatura de hoje, antes do rock orelhudo do final dos anos 90, Courtney Love era sangue. "Babydoll" tem 25 anos e não fica atrás de Sonic Youth via Kim Gordon (aliás, deve-lhe muito).

Há 40 anos, estes quatro vivos deram o melhor uso à expressão "mais meia hora e estou despachado". Apesar de haver nessa meia hora uma música chamada "Chain Saw", a moto-serra será a guitarra que se ouve por baixo do baixo (ui, por baixo do baixo) e da bateria da "Loudmouth". Sem ela, ainda andávamos à catanada.

Amanhã é sábado à noite.