Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Opinião

Um disco para levarmos o verão connosco

A estação quente (mesmo que a meteorologia não o pareça mostrar) chegou ao fim. E da ementa de canções novas saídas nestes três últimos meses, há um álbum que podemos manter por perto, para não deixar fugir o ver

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Gosto da ideia do “disco de verão”. Não falo do êxito da saison, que se repete até à exaustão e acaba em indigestão para os ouvidos (eventualmente podendo ter redenção conquistada, via nostalgia, uns valentes anos mais tarde, mas apenas pela gracinha do exercício de memória). Nem me refiro àqueles clássicos maiores que o tempo foi registando na sua história e que, a cada novo verão, levam nomes como os Beach Boys, Dick Dale, Mutantes, Nancy Sinatra, Pet Shop Boys ou Bananarama, a regressar aos nossos gira-discos, leitores digitais ou emissões de rádio. Falo dos álbuns novos que, pelas suas características temáticas e instrumentais, invariavelmente acabamos por associar aos dias em que o calor dita os acontecimentos.

Esses nem sempre são os “casos” sérios da estação. E às vezes passam ao lado de hipóteses de maior sucesso, o que não os impede de os associarmos a bons fins de tarde, muitas vezes com o mar pela frente. Foi assim, por exemplo, com os discos pop, leves, mas não subjugados às tendências dos gostos dominantes, que nomes como os Lemonade ou Teleman nos deram a escutar nos últimos anos, respetivamente ao som de Diver e Breakfast. Se não os conhecem acreditem que não é tarde para os descobrirem.

Este ano o título de “álbum do verão” deveria ir, com justiça, para o disco que, após uma ausência de 16 anos, nos devolveu, e ainda em grande forma, o projeto Avalanches. Neste novo Wildflower mostraram-nos, novamente, uma rara capacidade em construir grandes canções através de pedaços das canções dos outros. E, convenhamos, com uma impressionante carteira de convidados.

Há, porém, um outro álbum que merece não ficar excluído dos bons momentos que o verão de 2016 nos deu a escutar. E que, já que o sol e o calor não nos querem deixar, pode continuar connosco para, com ele, trazermos para este início de outono um pouco da estação que hoje nos diz adeus, e até ao meu regresso.

O disco foi algo timidamente lançado em meados de agosto quando, é verdade, poucos estão mais atentos às ondas de mergulhar do que nas que transportam música em si. E confirmou as suspeitas de quem já seguia este nome nos primeiros singles que vinha, pausadamente, a apresentar desde há alguns anos. Apresenta-se como Roosevelt. Mas na verdade o seu nome é Marius Lauber, vem de Colónia e mostra aqui que sabe lidar com o passado sem que o peso da nostalgia o domine. Pelo contrário, é da frescura das canções que nos dá a escutar em Roosevelt (deu ao disco o nome do projeto), álbum que nos mostra que é um homem do seu tempo, mesmo que goste mais de ouvir instrumentos que associamos a memórias de uma pop já com sabor vintage.

A sua música tem alguma afinidade com o que nomes do nosso tempo como os Hot Chip ou Washed Out nos têm dado a escutar. Trata-se de uma pop melodiosa e luminosa, mas bem resolvida segundo regras clássicas da canção. E entre os temas do álbum (em cujo alinhamento não faltam alguns dos singles que nos foi mostrando desde a sua estreia em 2012) há claros sinais de interesse por uma relação entusiasmada com a pista de dança.

Roosevelt é um álbum pop, mas nada tem em comum com a pop mais em voga dos nomes que fazem os acontecimentos do mainstream. Mas é um disco doce, acessível e sedutor. E acreditem que, com ele, levam um pouco do verão... E não tarda nada vai saber bem.