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Em grupo é mesmo melhor?

Chuck D dos Public Enemy e agora também dos Prophets of Rage atira-se a Kanye West e defende a teoria de que em grupo é que é bom. Rui Miguel Abreu torce o nariz

Em entrevista à Billboard, Chuck D, líder histórico dos Public Enemy, que agora também uniu esforços com B-Real dos Cypress Hill e, como explica a revista americana, "com todos os membros dos Rage Against The Machine que não se chamam Zack de La Rocha" no super-grupo Prophets of Rage, afirmou que o artista solo despiu o hip-hop da sua vitalidade. Diz o rapper veterano que são raras as excepcões de artistas solo com carreiras sólidas - ele nomeia Stevie Wonder e Elton John... - e explica que "é impossível passar mais do que meia hora a falar apenas de si próprio". O alvo do ataque parece ser Kanye West. Diz Chuck D que individuos como Kanye roubaram a legitimidade ao hip-hop transformando-o apenas num espetáculo.

Ora bem, este discurso tem, obviamente, mais buracos do que um queijo suíço. Kanye fez um grande disco este ano, Chuck há 20 anos que não consegue fazer um que seja apenas bom. Continuam a existir colectivos válidos no hip-hop, mas talvez hoje se organizem com diferentes dinâmicas, tendo conseguido, e em minha opinião ainda bem, desatar o nó paradigmático da "banda" imposto por 50 anos de rock and roll - falo de colectivos como a Pro Era de Joey Badass, como os Black Hippy de Kendrick Lamar, como os Odd Future de Tyler The Creator. A soul também foi terreno privilegiado de solistas - Marvin, Otis, Aretha, Stevie, Michael, Curtis, etc. Mas no caso do hip-hop é a ligação à ideia da palavra que emana do "eu" que justifica que se tenha transformado, sobretudo, num género de individualidades.

Seja como for, o rock nunca foi terreno exclusivo de bandas. Figuras como Jimi Hendrix, David Bowie, Lou Reed, Neil Young, Bob Dylan, Bruce Springsteen, Tom Waits, Prince, Nick Cave, Jack White, etc, sempre emanaram uma forte aura individual e nunca dependeram de coletivos para se afirmarem ou alcançarem justo sucesso.

O problema de Chuck D, na verdade, é apenas um: como garantir relevância num admirável mundo novo? Atacando quem está no topo da montanha, por exemplo. Claro que Kanye tem um ego desmedido e que a sua popularidade repousa, sobretudo, na forma como comunica na era das redes sociais. Mas nada disso contraria o facto de The Life of Pablo ser um grande disco e de cada novo gesto estético de Yeezy carregar consigo uma generosa dose de risco. Qual o risco, exactamente, de tocar versões de "Fight The Power" e "No Sleep Til Brooklyn" com os Rage Against The Machine como banda de suporte?

Curioso que isto aconteça no momento em que Zack de La Rocha apresenta "Digging For Windows", primeira amostra de um futuro álbum a solo que, supostamente, será gravado com uma série de produtores hip-hop. O primeiro é aliás El-P, membro dos Run The Jewels - um "grupo" hip-hop (Killer Mike facilmente conta como dois ou três membros...) que prova que afinal o coletivo ainda tem lugar no presente. O mesmo talvez já não se possa dizer de Chuck D. E reparem que eu sou fã dos velhinhos Public Enemy...