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Faith No More

“King For a Day”, 21 anos de um álbum mal-amado

O álbum de “Evidence” ou “Ricochet” regressa às lojas numa edição especial. Recordamos alguns dos seus encantos, à época pouco valorizados

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Algures no milénio passado, quando a internet era uma novidade excitante, tinha por hábito encher disquetes com fotos e informação que encontrava nos não muitos sites que costumava visitar. Acometida pelo temor de que a internet, tão rara e tão lenta naquela década de 90, fosse acabar no dia seguinte, carregava no “save as” sempre que me deparava com algum conteúdo imperdível. Suspeito que as disquetes se tenham perdido numa qualquer mudança de casa, mas sei que numa delas guardei a teoria que encontrei (e que me fascinou) num fórum de fãs dos Faith no More. Defendia o melómano que King For a Day, Fool For a Lifetime, o álbum que a banda de São Francisco lançou em 1995, era a narrativa não assumida de um prisioneiro, desde a tentativa de fuga da cadeia (na inicial «Get Out») até à redenção final (com o épico «Just a Man»).

Nunca li nada, da parte da banda, que confirmasse (ou desmentisse) a fantasiosa teoria, mas lembro-me amiúde dos argumentos entusiasmados do fã, certamente tentando defender, tal como eu, um disco que, à época do seu lançamento, não foi propriamente acarinhado. Depois da pompa e da exuberância de Angel Dust, nem fãs nem imprensa esperavam, ou desejavam, a rudeza seca de King For a Day, Fool For a Lifetime.

O álbum de «Evidence» é, contudo, um fruto do seu tempo e, sobretudo, das circunstâncias em que foi gravado. No texto que acompanha a reedição do álbum, agora devolvido às lojas pela Warner, que detém o catálogo dos californianos, Roddy Bottum explica isto mesmo: «Para o bem e para o mal, os nossos discos sempre foram um reflexo do ponto em que nos encontrávamos a certa altura, assim como uma reação à nossa última jornada».

King For a Day, Fool For a Lifetime encontrou os Faith No More na ressaca de uma gigantesca digressão com os Guns N’ Roses («Éramos o underdog e estávamos constantemente a ter de provar o nosso valor», lembra o teclista), do abandono do guitarrista Jim Martin (substituído por Trey Spruance, dos Mr. Bungle) e ainda a braços com a ausência do próprio Roddy Bottum, então em processo de desintoxicação.

Um dos fundadores da banda, Bottum é o primeiro a admitir, no texto da reedição, que todas estas contrariedades se espelharam no resultado final, mas de forma apetitosa: «Acabámos por escrever e gravar algumas das nossas canções mais radicais, como “Cuckoo For Caca” e “Ugly In The Morning”, algumas das mais doces, como “Take This Bottle” e “Caralho Voador”, e algumas das mais melodramáticas, como “Just a Man”. Estranhamente, algumas das nossas mais convencionais, como “Evidence” ou “Digging The Grave”, também fazem parte da embalagem», resume.

Na aparente anarquia do alinhamento, King For a Day, Fool For a Lifetime faz jus ao ecletismo e ao humor da banda, agora reforçado nos extras da reedição, com a cover dos Bee Gees, «I Started A Joke», versões de «Evidence» em português e espanhol e outros brindes que, nos anos 90, eu colecionava em cassetes gravadas por amigos tão ou mais dedicados do que eu.

Pela honestidade com que reflete o momento atravessado pela banda, e sobretudo pela fabulosa coleção de canções que até hoje ouço com frequência, King For a Day, Fool For a Lifetime, produzido por Andy Wallace (que a banda escolheu por ter produzido Slayer E Run DMC), acaba por ser o meu disco favorito dos Faith No More. Celebro o seu regresso às lojas com duas versões que Mike Patton e companhia tocavam ao vivo por esta altura e que não estão nesta reedição, mas que não fariam lá má figura: