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Ainda há histórias dos Beatles para descobrir

O magnífico filme de Ron Howard “Eight Days a Week” recorda a etapa de vida dos Beatles em que o palco estava no centro das atenções. É um regresso dos ‘fab four’ aos ecrãs de cinema num momento em que passa meio século sobre o momento em que o grupo optou por deixar a estrada para, em estúdio, levar a sua música a maiores desafios.

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

No verão de 1966, cansados de rotinas exaustivas de vida na estrada e, sobretudo, da transformação do que eram concertos feitos de partilha entre banda e plateia num festival de gritaria para multidões gigantescas naquela que fora a primeira digressão em estádios – na qual, eles confessam, nem se ouviam uns aos outros – os Beatles deixaram os palcos, descobrindo no estúdio novos desafios que, de facto, os levaram a criar alguns dos seus melhores discos (e alguns dos mais aclamados da história da música). Cinquenta anos depois do adeus, que teve lugar num concentro em San Francisco, na Califórnia, no estádio Candlestick Park, durante o qual os músicos foram para os palcos com as suas máquinas fotográficas para documentar a última vez (apesar de não terem ainda dito que assim seriam a ninguém), a etapa de vida dos fab four que teve a estrada como o seu mais frequente palco é tema de um documentário que, não só devolve os Beatles ao cinema (onde viveram importantes momentos da sua carreira) como abre possibilidades a muitas histórias que, como aqui se vê, ainda estão por contar. E mostrar.

“Eight Days A Week”, de Ron Howard, toma por título uma canção célebre da etapa de consagração global de popularidade dos Beatles. Mas traduz uma verdade laboral... É que, tanto nos tempos em que andavam entre Liverpool e Hamburgo (de 1960 a 1962) e nos dois anos que se seguiram ao lançamento do álbum de estreia Please Please Me (editado no início de 1963), raros foram os dias em que não subiram ao palco para tocar, as exceções quase só chegando quando entravam em estúdio para gravar (depressa) ou faziam filmes... Só em 1965 tiraram umas primeiras férias, seguindo-se nova torrente de atuações. Até que, em 1966, perante o cansaço e o apelo dos novos horizontes a que a sua música podia rumar em estúdio, tiveram uma agenda de palco de dieta. E depois, o adeus...

O filme de Ron Howard percorre essa etapa, deixando-nos nas sessões que geraram a gravação do mítico Sgt. Pepper’s (em 1967), embora não esquecendo que a história “ao vivo” dos Beatles teria ainda um breve capítulo extra depois do concerto de Candlestick Park quando, em janeiro de 1969, deram uma célebre atuação nos telhados da sede da Apple Corps, em Saville Road (Londres), nasceu da consciência de que havia, nesta etapa, uma história por contar. Foi o próprio Ron Howard quem o explicou ontem em Leicester Square, na estreia mundial do filme, explicando que mergulhou depois em muitos arquivos, parte fundamental de um documentário que contou também com imagens de muitas coleções particulares que, agora, permitem a revelação de momentos nunca antes vistos como, entre outros, as memórias da etapa australiana da vida em palco dos fab four.

Às imagens de arquivo o filme juntou uma série de entrevistas que procuraram, acima de tudo, partilhar vivências de quem passou, na época, pela experiência de descobrir os Beatles. Entre as figuras entrevistadas estão, por exemplo, a atriz Sigourney Weaver, que a equipa de Ron Howard descobriu em imagens do público num concerto em Los Angeles em 1964. Ou Whoopi Goldberg, que lembra como a mãe a levou ao histórico concerto no Shea Stadium, em Nova Iorque. E ela, tal como a Dra. Kitty Oliver, natural da Florida, recordam como a diferença na cor da pele não as impediu de aderir à Beatlemania. Kitty, que também ontem esteve em Londres na estreia mundial, lembrou inclusivamente no filme que a passagem dos Beatles por Jacksonville, na Florida, teve um papel determinante na história da luta pelos direitos civis já que, pela primeira vez na cidade, uma sala de concertos abriu as portas sem segregar o público. Essa é mesmo uma das sequências fulcrais do filme, recordando Ringo Starr que os Beatles não eram uma banda que tocasse para uns ou para outros... Tocavam para todos. E logo em entrevistas que antecederam o concerto, deixaram claro que a ideia de uma plateia segregada não fazia sentido para eles. Tanto que, no contrato, Brian Epstein, o manager do grupo, deixou claro (num dos pontos), que tocar para uma sala sem público segregado era condição necessária para a realização do concerto. E fez-se história.

Esta é apenas uma entre as muitas que povoam o filme, por onde passam ecos do bom humor em conferencias de imprensa que eram quase momentos de stand up comedy, memórias de histeria nas plateias (com McCartney a lembrar que, quando abanavam as cabeças, os gritos das fãs ainda eram mais intensos) ou das experiências conjuntas com o manager, o produtor George Martin ou aqueles que os acompanharam de perto.

No fim fica a certeza de termos visto uma história bem contada (com banda sonora gourmet), e a sensação de que a vida dos Beatles no cinema não vai ficar por aqui...