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Ó tempo, volta para a frente

No dia em que se cumpre o vigésimo aniversário sobre o desaparecimento de Tupac Shakur e em que DJ Shadow confirma a reedição de Endtroducing, Rui Miguel Abreu reflecte um bocadinho sobre o tempo

Serei, certamente, portador de muitos defeitos, penitenciador de muitos pecados, mas não sou, certamente também, membro daquela irritante classe que passa a vida a dizer "no meu tempo é que era". O meu tempo é este, de fim de verão de 2016, de quase outono que ameaça chegar cinzento, de um 2017 que não consigo encarar de outra forma que não seja como um ano que chegará cheio de promessas que desejo ardentemente ver cumpridas.

Tendo dito isto, duas coisas curiosas obrigam-me hoje a recuar um par de décadas, até 1996. Para começar, cumprem-se hoje 20 anos sobre o desaparecimento de Tupac Shakur. Nunca foi propriamente um crente na igreja do "Santo" 2Pac, nunca foi membro militante do seu "partido" revolucionário, mas também recusei sempre crucificá-lo por causa da violência e do carácter vincadamente misógino de algumas das suas letras. O que sempre entendi é que Tupac era profundamente humano, incluindo nas suas contradições - o mesmo homem que escreveu "Dear Mama" também assinou "Hit 'Em Up". Talvez se deva saudar a coragem de alguém que nunca escondeu os seus defeitos e, sobretudo, como demonstrou bastas vezes em entrevistas, nunca tentou disfarçar o arrependimento de algumas coisas que disse e fez. Tupac, muito provavelmente, mais do que herói foi uma vítima do seu tempo, da sua cultura, do seu ambiente. E isso humanizou-o ao invés de o demonizar. E talvez isso ajude a explicar porque continuamos a falar dele, tantos anos volvidos. Tivesse vivido, provavelmente teria corrigido muitas das suas falhas.

Outra ideia sobre o tempo: confirmou-se hoje que DJ Shadow está mesmo a preparar a reedição da sua obra magna, o álbum Endtroducing com que se estreou há 20 anos. Por muito que todos possamos ver esse registo como o pináculo da sua obra, é impossível não admirar a tenacidade com que Shadow se recusou a ficar preso nesse tempo, nesse 1996 em que se estreou em formato grande. O produtor californiano editou um vigoroso trabalho já este ano, The Mountain Will Fall, em que reclama espaço no presente e ousa olhar para o futuro; continua na estrada a reclamar vitalidade pelo que pode apresentar agora e não se limita a replicar gestos antigos que certamente bastariam para apaziguar os seus fãs da velha escola. E confrontado com a necessidade de reembalar o seu primeiro álbum, Shadow já fez saber que o quer fazer investindo no presente e no talento que molda este tempo. Recrutou Clams Casino e Hudson Mohawke para as remisturas, certamente dois dos estetas que definem a actual sonoridade do hip-hop a que muitos dos seus fãs originais devem torcer o nariz.

O aniversário da morte de Tupac e o do nascimento de Endtroducing dizem-nos uma e a mesma coisa: o tempo oferece-nos a todos a desculpa perfeita para que possamos crescer e melhorar. Não agarrar a oportunidade é deitá-lo fora. E o tempo é um bem demasiado precioso para ser desperdiçado.