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Estreia mundial de "One More Time with Feeling", o filme, aconteceu quinta-feira. "Skeleton Tree", o álbum, está disponível desde esta sexta-feira

Nick Cave: para lá da dor

Quem estava preparado para levar um murro no estômago com o novo documentário de Nick Cave pode, desde já, contar com uma dilacerante facada no peito

Muitos de nós evitam enfrentar a dor a todo o custo, o que é por demais compreensível. Dir-se-á então que “One More Time with Feeling” é um filme de “cortar os pulsos”. Não é essa, porém, a opinião do próprio Nick Cave a quem, no dia 14 de julho de 2015, morreu um filho de 15 anos depois de se despenhar de um penhasco perto da sua casa em Brighton, na Inglaterra. Antes pelo contrário, este documentário é produzido e protagonizado por alguém que depois de ter sofrido tal trauma está pronto para o mostrar ao mundo. Alguém que diz, aconteceu uma tragédia, venham filmar. Esse alguém, é Nick Cave, um dos mais celebrados escritores de canções do momento, com carreira estabelecida ao longo de décadas e um culto cada vez maior.

Antes, Nick Cave sublimava a dor pelo trabalho. Agora, a dor é o próprio trabalho

Antes, Nick Cave sublimava a dor pelo trabalho. Agora, a dor é o próprio trabalho

“One More Time with Feeling” quase pode ser considerado pornográfico pela forma obsessiva como mostra a dor que Nick Cave sofre mas está muito para lá do mero exibicionismo. É verdade que todos podemos considerar que a nossa própria vida dava um filme mas no caso de Nick Cave, a crise dilacerante da perda do filho serviu para fazer um disco – “Skeleton Tree”, disponibilizado hoje, pouco tempo depois da estreia mundial do filme, ontem – e dizer ao mundo: “já não sou a mesma pessoa” e “estou cheio de dúvidas”.

A dúvida assombra o filme desde os primeiros momentos. As imagens podem ser a preto e branco mas a realidade não é. Logo de início, nos primeiros planos em que surge Warren Ellis, o companheiro de Nick Cave dos últimos anos e o xamã que convoca as musas para as suas canções –, ele surge desfocado. “Está fora de foco”, diz uma voz off. O realizador confirma essa questão e o próprio Nick Cave garante que não tem a certeza do que anda para ali a fazer.

As canções de “Skeleton Tree” são em grande medida compostas e interpretadas por Nick Cave e Warren Ellis

As canções de “Skeleton Tree” são em grande medida compostas e interpretadas por Nick Cave e Warren Ellis

A dúvida e o omnipresente tom de desnorte relevam do estado crítico em que se encontra alguém que perdeu um ente querido. A morte de um filho é, sobretudo para os seus pais, algo que contraria a natural evolução da vida, algo capaz de contrariar os instintos mais básicos. Neste caso, uma morte para a qual não há explicação, um “acidente”, mas isso é só para quem acredita em “acidentes”. Não é o caso de Nick Cave mas é nesse estado que percorre todo o filme, confessando que já não é a mesma pessoa, que apesar da sua pele poder ser ainda a mesma, ele, lá por dentro, já não é o Nick Cave que conhecemos. E não fez nada por isso. Mas o efeito dessa rutura é tão brutal que põe em causa a sua própria existência, a dos outros e, claro, a de Deus.

A coragem e, diria, honestidade, com que Nick Cave se expõe são no mínimo comoventes. Qualquer ouvinte conhecedor da sua discografia, perante estas imagens que ali se apresentam fica com a certeza de que uma coisa é cantar “The Mercy Seat”, uma das canções mais célebres do seu reportório, outra é sentar-se no Trono da Misericórdia. É isso que ele faz. Em público. E isso dói.

A exposição a que Nick Cave se oferece tem momentos de enorme crueza

A exposição a que Nick Cave se oferece tem momentos de enorme crueza

Algures na segunda metade dos anos 90 tive oportunidade de entrevistar Nick Cave. Tinha acabado de publicar um disco que incluía uma canção escrita em português, “Foi na Cruz”, mercê de se ter estabelecido em São Paulo enquanto namorou com uma rapariga brasileira. Foi com indesmentível descaramento que lhe perguntei se conhecia a palavra saudade. E foi com espanto que ouvi a resposta: “todas as canções que escrevi partem desse sentimento”. Exultei a ponto de dar a entrevista concluída poucos minutos depois.

Pode ter sido por “acidente” que, anos mais tarde, tropecei no texto de uma das suas palestras sobre “A Canção de Amor”, com vastas citações à obra de Garcia Lorca. Nick Cave voltava à carga: “passaram vinte anos de escrita de canções e o vazio cresce cada vez mais dentro de mim. Permanece essa inexplicável tristeza, o duende, a saudade, o divino descontentamento persiste e talvez continue até que eu veja a face de Deus”.

Ou ainda, noutro dos seus textos, “todos nós sentimos aquilo que os portugueses chamam de saudade, uma inexplicável ausência, um desejo sem nome e uma enigmática ânsia da alma, e é este sentimento que vive no reino da imaginação e da inspiração, que é o terreno fértil para a canção de amor. Saudade é o desejo de se ser transportado da escuridão para a luz, de se ser tocado pela mão daquele que não é deste mundo. A canção de amor é a luz de Deus, que bem fundo rasga as nossas feridas.” (em tradução livre).

Aparentemente, esta música e estas imagens não pertencem a nenhum lugar em particular

Aparentemente, esta música e estas imagens não pertencem a nenhum lugar em particular

Ora, se era assim há vinte anos quando, nos dias de hoje, Nick Cave se atreve a falar das suas assombrosas novas canções – o filme é, nas suas próprias palavras, uma forma de evitar as entrevistas com jornalistas que habitualmente sucedem depois da publicação de um álbum de forma a promover a suas vendas e a sua divulgação – já diz que elas são premonitórias, predições do que há de vir. Toda essa ansiedade passou a ser projetada no futuro, e não naquilo que foi. Mas não vale a pena fazer confusões: dizer que a tristeza das oito canções de “Skeleton Tree” já foi plasmada em centenas de canções da história da música popular portuguesa é tão verdade quanto garantir que essa inexplicável ausência também se encontra no cancioneiro brasileiro, argentino, angolano ou norte-americano.

Sem querer maçar ninguém com mais lembranças, devo acrescentar que Elvis Costello jurou em entrevista publicada em 2002 que também conhecia de ginjeira essa droga chamada “saudade” e que até havia uma música própria do Oceano Atlântico, na qual aliás inscrevia Liverpool e os Beatles. Tendo o privilégio de o ter ouvido associar a arte de Amália Rodrigues à de Oum Kalsoum, a diva do Egipto considerada a maior cantora do povo no mundo árabe, isso impressiona. Porque tal como os fados de Amália ou as intermináveis récitas de Kalsoum, as canções de Nick Cave, e este filme sublinha isso mesmo, afirmam-se como música intrinsecamente popular, no sentido em que são duas ou três notas musicais que não valem absolutamente nada em termos de erudição mas que são capazes de dizer tudo. Por isso a atitude do artista é determinante e o seu papel na sociedade a chave deste drama. Poucos artistas ousaram expor-se como Nick Cave mas não há nenhuma documentário musical tão eloquente quanto este.

As sanções de “Skeleton Tree” são intrinsecamente pop mas isso não quer dizer que estejam próximas de Justin Timberlake

As sanções de “Skeleton Tree” são intrinsecamente pop mas isso não quer dizer que estejam próximas de Justin Timberlake

Também são assim os acordes do piano que ele toca, ou as melopeias do pequeno teclado de Warren Ellis que se despem de valor para poder desejar tudo. E assim, de acordo com toda esta nudez, Nick Cave é capaz de apresentar-se como sendo a sua própria obra. Como no melhor do fado, do blues, do samba ou do tango, o rock’n’roll, e aqui não há uma única guitarra elétrica estridente, é ele. Transformou-se o amador na coisa amada. Mas por ser verdade, ou por se apresentar sem mácula como a verdade, este documentário produzido com recurso à mais crua autenticidade (ainda que recorrendo à repetição de cenas e a uma montagem hábil) é ele próprio uma revelação. Nada de novo: o poeta chega a fingir que é dor a dor que deveras sente.

Mesmo que as palavras e as imagens, só por si, não cheguem para oferecer a devida dimensão a este Cave em crise. “One More Timer with Feeling” mostra-o despudoradamente à procura de uma saída para o trauma. Mas, e aqui há que dar razão a Morrissey, as imagens do filme obrigam-nos a criar uma realidade que não é exatamente a mesma que as canções, na sua versão exclusivamente em áudio, convoca. Ouvir “Skeleton Tree”, o álbum, no Spotify e visionar essas mesmas canções na pantalha são experiências diversas. E o mergulho na escuridão que a sala de cinema permite transforma a dor partilhada por Nick Cave em algo que por vezes se aproxima do insuportável. Porque é raro ou mesmo único, alguém ser filmado enquanto batalha pela própria sobrevivência.

Banda? Qual banda?

Banda? Qual banda?

Uma comoção que se agiganta quando nos aproximamos do final, também ele surpreendente. Para trás ficou o típico humor australiano, algures entre o sarcástico e o melancólico, e adiante está a porta que Nick Cave vai procurando. É uma caminhada sem fim, sem solução à vista. Porque não vale a pena enganar a realidade. Quando Nick Cave conta que os amigos o tentam consolar dizendo que o filho perdido continua a viver no seu coração, ele só responde que isso é mentira porque Arthur já não está vivo. Ou que a morte de Arthur é como um elástico que vai esticando, que o deixa ir em frente, mas que o devolve sempre a esse evento. Essa crueza e esse discernimento são tamanhos que o filme não escapa à exposição da mulher, Susie, do outro filho que sobreviveu, Earl. Nem o penhasco de onde Arthur caiu. Nem do próprio Arthur que, no final, se ouve a cantar “Deep Water”, a canção que o pai escreveu para Marianne Faithfull. Quem chegar aqui sem uma lágrima no olho pode voltar à casa partida: “Eu não fiz nada. Porque hão de ter pena de mim?”

Com a sua mulher, Susie Bick, designer de moda

Com a sua mulher, Susie Bick, designer de moda

Getty Images

Mas ainda antes chega o apaziguamento. Como em “Rumble Fish”, de Coppolla, também aqui há cor num filme a preto e branco. Alguém que apreciámos ver cantar o Deus grande e malvado do Antigo Testamento mas que aqui não tem medo de se apresentar em toda a sua imensa vulnerabilidade vislumbra, finalmente, a saída: “Há muito mais paraíso no inferno do que aquilo que nos tinham dito”. O amor e a consciência do lugar. E esse lugar pode ser um pequeno grão de areia em que, mais tarde ou mais cedo, estarão representadas todas as tragédias do mundo. O sítio onde do mal nasce o bem.

Originalmente publicado no Expresso Diário de 9 de setembro de 2016