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Dez notas sobre a via-sacra de Nick Cave

Skeleton Tree, o disco, foi hoje revelado. One More Time With Feeling, o documentário, estreou ontem. Aqui deixamos algumas notas sobre o que vimos e estamos a ouvir

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

O filme One More Time With Feeling está perto do final quando Nick Cave confessa que, por estes dias, não sabe bem o que anda a fazer. Cada palavra que pronuncia, numa conversa reticente com o realizador Andrew Dominik, parece pesar uma tonelada. E depois daquela admissão de desnorte, a cor regressa ao grande ecrã, embebido num rigoroso preto e branco durante as quase duas horas que já ficaram para trás. «Let us go now, my one true love / Call the gas man, cut the power out», começamos a escutar, na voz de Nick Cave, que terá aceitado fazer este documentário sobre as gravações do novo Skeleton Tree para evitar ter de responder às perguntas dos jornalistas sobre o evento (ou, como ele lhe chama, o «trauma») que há um ano mudou tudo: a morte do seu filho Arthur, de 15 anos.

O filme estreou ontem em vários países, Portugal incluído, e na sala onde o vimos – nas Amoreiras, em Lisboa – o silêncio dos espectadores marcou a sessão. Entre convidados e fãs, todos assistiram à expiação de Nick Cave da forma mais solene possível e, finda a projeção, pouco mais se ouviu do que alguns narizes congestionados. One More Time With Feeling abre, também, uma janela generosa sobre as gravações de Skeleton Tree, apresentando na íntegra várias canções do disco que só hoje é lançado. Mas, como o próprio Nick Cave admite, Arthur, um dos seus filhos gémeos com Susie Bick, «is all around». «Dizem-me que ele vive no meu coração. Ele está no meu coração. Mas não vive. Eu não consigo pensar dessa maneira». Citamos de cor, mas esta é, grosso modo, a forma como o australiano que este mês completa 59 anos parece encarar a tragédia que se abateu sobre a sua família no verão de 2015. Ainda que, di-lo a certa altura, como que agrilhoado pelas palavras que lhe vão saindo, tenha algum pudor em comentá-lo publicamente. Porque, explica de forma clara, «isto aconteceu-nos a nós, sim. Mas aconteceu-lhe a ele».

Enquanto escutamos as canções de Skeleton Tree, ficam algumas ideias sobre o filme, a música e tudo à volta do planeta Nick Cave, neste ano de graça de 2016.

1. Nas gravações de Skeleton Tree, Nick Cave é visto a rir, a brincar com os seus músicos, a fazer algumas piadas. Mas, neste momento, tem a sensação de que o tempo «é elástico. Podemos avançar com a nossa vida, mas acabamos sempre por voltar àquele dia», admite, fazendo o gesto de uma elástico imaginário que regressa a 14 de julho de 2015, data em que o seu filho foi encontrado sem vida no fundo de uma ravina. «É como um sítio onde não podemos ir. Tudo à volta está bem, mas ali não entramos».

2. Nick Cave não era nada sem Warren Ellis, o Bad Seed que, neste filme, confessa ter comprado um violino de alumínio por três mil dólares. «Soa bem?», quer Cave saber. «Não, mas é lindo!», ri-se o australiano que toca consigo há mais de 20 anos. «O que faria eu sem o Warren? Olhem para ele, a segurar as pontas todas», ouvimos Cave a dizer, a certa altura.

3. A menos de dois anos dos 60, Nick Cave teme estar a perder faculdades. «Coisas que perdi: a minha voz. O meu iPhone. A memória. Talvez o discernimento». A sua crença em Deus («You believe in God, but you get no special dispensation for this belief now», canta em «Jesus Alone») também parece ter sido abalada pela morte do filho. «Deus é grande, sim. Mas é bom?», interroga-se.

4. Depois do «trauma», como repetidas vezes se refere ao sucedido, Nick Cave teve de «renegociar» o seu lugar no mundo. «Como é que nos habituamos a ser objeto de pena dos outros?», questiona-se.

5. Nick Cave acredita que as mulheres são a 3D, ao contrário dos homens, seres mais unidimensionais. «Mas [a minha mulher] mudou, porque tem convivido com os mortos», diz, enquanto vemos imagens de Susie Bick passeando junto ao mar, possivelmente na cidade inglesa de Brighton, onde o casal vive com o seu outro filho, Earl.

6. «De onde vieram estes papos por baixo dos meus olhos? Não estavam aqui há um ano», espanta-se Nick Cave ao espelho. Preocupado com as olheiras e o cabelo, quando põe os auscultadores em estúdio, partilha que o realizador lhe disse que a sua cara parece «um monumento vandalizado. Tenho a impressão que está a ser simpático. Tenho de me lembrar de ser simpático».

7. Nick Cave conhece o mito de que é preciso sofrer para fazer boa arte. «Todos nós já quisemos que acontecesse algo na nossa vida para termos sobre o que escrever». A morte do seu filho, porém, foi «muito prejudicial para o processo criativo», garante.

8. Dantes, Cave era extremamente rigoroso na escrita das suas letras. «Só libertava uma deixa quando estivesse completamente satisfeito com ela», diz. Neste disco é diferente, pois as palavras funcionam, ou não, por razões diferentes das estéticas.

9. Ainda que a ausência de Arthur continue a marcar as suas vidas de forma avassaladora, Nick e Susie decidiram «ser felizes. Como ato de vingança e de desafio».

10. No final do filme, ouvimos uma versão de «Deep Water», o tema que Nick Cave escreveu com Marianne Faithful para o disco que a britânica lançou em 2014, Give My Love To London. É cantada por Arthur e Earl Cave, os gémeos nascidos em 2000, e é um final comovente para um documentário que Nick Cave diz não saber porque fez. Mas ainda bem que o fez.