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Cristina Branco, o pardal imperial

A cantora está de regresso com o belíssimo Menina e, apesar da majestosidade das canções e da sua interpretação, continua a considerar-se um simples pardal

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Em 2013, ao preparar uma entrevista com Cristina Branco, descobri uma conversa que a cantora de Almeirim tinha tido com outra publicação, na qual confessava que a música surgiu na sua vida por mero acaso. Quando começou a cantar, dizia, parecia «um pardal». Quando me encontrei com ela numa esplanada de Lisboa, para falarmos sobre o disco que então promovia, Alegria, perguntei-lhe se, tantos anos volvidos e tantas glórias depois, já se sentia como outra ave. Uma águia, talvez? Rindo, afastou perentoriamente a sugestão. «Só se for uma coruja, por andar na escuridão!», brincou.

Chegados a 2016, a rentrée traz-nos uma mão cheia de discos palpitantes (a nível nacional, por exemplo, o final do mês reserva-nos o belíssimo Mergulho em Loba, de Joana Barra Vaz), e um deles é deste pardal imperial que dá pelo nome de Cristina Branco.

Dividindo o seu tempo entre a Holanda e Portugal, a mulher em cujo rosto Júlio Pomar se inspirou para pintar o busto da República Portuguesa regressa aos álbuns com Menina, um disco que apresenta não só como feminino, como feminista.

Nesta dúzia de canções, a voz de Cristina – a própria o reconhece – vai a mais sítios do que nunca, erguendo-se de tons especialmente graves aos registos mais histriónicos. A elasticidade serve para dar vida aos temas que um elenco particularmente eclético engendrou para si; nesta altura do campeonato, já não nos devemos surpreender com a salutar facilidade com que os músicos da nossa praça criam para outras vozes. Em Menina, os irmãos Pedro da Silva Martins e Luís José Martins, dos Deolinda, respondem à chamada de Cristina, tal como Jorge Cruz, dos Diabo da Cruz, que muito recentemente escreveu, também, para Ana Moura ou Raquel Tavares, e aqui repete a dose certeira.

Mas há outras estreias e surpresas muito saborosas, pela mão de Peixe e Nuno Prata (os homens que em tempos tomaram conta da guitarra e do baixo dos Ornatos Violeta são os autores da brilhante «A Meio do Caminho»); de Luís Gomes, aka Cachupa Psicadélica, que escreveu um mantra cálido e fluido chamado «Deus A», ou da «debutante» Ana Bacalhau, dos Deolinda, que presenteia Cristina Branco com a letra de «O Gesto Dela».

A liberdade que Cristina Branco ofereceu aos seus colaboradores fica bem patente logo em «E Às Vezes Dou Por Mim», o primeiro single de Menina. Ainda que conheçamos e apreciemos o trabalho dos seus autores em sede própria, nunca nos passaria pela cabeça que haveríamos de escutar uma canção com música de Filho da Mãe, o guitarrista que outrora integrou a banda rock If Lucy Fell, e letra de André Henriques, dos Linda Martini, na voz majestosa de Cristina Branco.

A elegância com que André Henriques encarna uma visão feminina muito particular, entre a solidão e o grito de raiva, é apenas uma de muitas razões para começarmos a desbravar este admirável mundo novo de Cristina Branco. Secundada pelos melhores, quer na escrita como na interpretação, mas sempre com uma identidade inconfundível, ela pode continuar a considerar-se «o mais simples dos pardais», mas evoca no seu canto a beleza emocionante dos mais singulares fenómenos da natureza.

Menina, o novo disco de Cristina Branco, chega às lojas a 16 de setembro.