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Deixem-me resmungar um bocadinho

Rui Miguel Abreu, em vésperas de breve mas merecido descanso, faz uma lista do que lhe anda a baralhar as ideias

1. Os VMAs: a MTV já não é o canal de música que em tempos metade do planeta seguia ardentemente enquanto a outra metade desejava poder seguir, mas ainda assim revela-se um incontornável trampolim para a pop mais avançada do planeta, tendo permitido que Beyoncé assinasse um antológico momento de televisão e que Kanye West ensaiasse a sua postura presidencial, talvez a pensar já em 2020. Ironia: a MTV premeia artistas que hoje vivem, sobretudo, nas redes e em ecrãs bem mais pequenos do que aqueles com que o canal originalmente se impôs.

2. Frank Ocean trocou as voltas à Def Jam / Universal, cumpriu contrato com Endless e ainda estruturou esse registo de tal maneira que não pudesse ser considerado para o Top Billboard 200 (é uma faixa apenas...), abrindo assim espaço para que Blonde registasse a terceira maior estreia no primeiro lugar do Top este ano, logo depois de VIEWS e de Lemonade, discos de duas estrelas que, claro, estiveram presentes nos VMAs.

3. Demos por aqui na BLITZ um merecido destaque de parabéns a Zé Pedro, o icónico guitarrista dos Xutos que é também um dos mais fervorosos fãs que o nosso país já gerou. A revista, a julgar pelos comentários que gerou online, parece ter surpreendido muito boa gente. Ainda bem. Mas nós trabalhamos todos os meses para surpreender toda a gente.

4. Estamos em 2016 e ainda há quem escreva “kizomba” e “declínio civilizacional” na mesma frase não percebendo que nas complexas entrelinhas do discurso se disfarça de suposta superioridade intelectual um vergonhoso resquício do pensamento da outra senhora. Ouvir The Clash em 1985 ou 1990 por oposição a ouvir Rihanna, Drake ou Anselmo Ralph em 2016 só significa uma coisa: esta geração aprendeu melhor a lidar com o presente.

5. Que mais? Os algoritmos do Spotify estão cada vez mais certeiros e afinados, sinal de que as máquinas nos começam a conhecer melhor. Verdade, mas ainda ontem a minha filha me mostrou o brasileiro Jaloo recebendo em troca o “Construção” do Chico. Ficámos os dois contentes: este novo cantor estilizado como um índio do Amazonas, mas em versão sado-maso-queer também deve, certamente, ser encarado por muitos como mais um sinal do “declínio civilizacional” gritado mesmo antes de afagar as memórias de adolescência com Kajagoogoo e Culture Club.

Vou de férias, não liguem à resmunguice.

Até já.