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Frank Ocean e o admirável mundo novo de “Blonde”

Rui Miguel Abreu acredita que 2016 está a revelar-se um ano de exceção e aponta o álbum que Frank Ocean disponibilizou este fim de semana como um dos marcos de uma nova era na pop

Espero que Drake e Future não se importem que eu me aproprie do título da mixtape colaborativa que assinaram há quase um ano, mas, raios, que tempo incrível este para se estar vivo e apreciar a música que nos chega de quase todo o lado (sobretudo dos serviços de streaming da internet...).

Olhando apenas para o “topo da pirâmide”, 2016 ofereceu-nos The Life of Pablo, Lemonade, VIEWS, Coloring Book e ainda trabalhos incríveis de gente tão diversa como Kaytranada, Skepta, SchoolBoy Q, Anderson .Paak. Até Kendrick Lamar lançou material novo. Ano incrível. Mesmo. E agora chega Blonde que também é Blond e que sucede a Endless. O mundo pode ter esperado quatro anos pelo sucessor de channel ORANGE, mas teve apenas que aguardar dois dias para que Endless fosse seguido de Blonde. Obrigado Frank.

Curiosamente, e este texto é sintoma disso mesmo, um artista maior demora quatro anos a construir o seu novo trabalho, mas neste universo que parece funcionar à velocidade da luz (fibra óptica...) cá estamos nós, meros dias depois de recebermos este Blonde a tentar revirar-lhe as entranhas, quase como se quiséssemos fazer uma autópsia num corpo vivo. Sinal dos tempos, claro, mas também genuína sede de compreender.

Ainda agora um amigo, acusando nas redes o toque do falatório generalizado, dizia, não sem graça, que gostaria de ler um guia Frank Ocean para Totós e quase apetece dizer, contrariando a ideia que sustenta a minha profissão, que Frank Ocean não se pode explicar, apenas sentir. Na verdade, sim, pode-se explicar muito daquilo que faz deste artista uma das mais fascinantes personalidades do universo da pop dos últimos anos, mas a explicação mais eloquente é mesmo oferecida pelo novíssimo Blonde. Atenção às próximas linhas...

Vivemos dias de derrube de fronteiras e isso é incrível. Durante anos, a indústria discográfica, para melhor poder vender os seus produtos, foi tentando separar tudo em diferentes gavetas: coisas pop e coisas “alternativas”; música “branca” e “negra”; rock e rap; r&b, singer songwriters... E hoje vemos as galáxias colidirem para darem origem a novos universos: Father John Misty a escrever para Beyoncé; os Tame Impala a reclamarem a influência do r&b de Aaliyah e dos anos 90; Beck a correr atrás de Chance The Rapper; Vince Staples a citar a influência dos Joy Division; Jonny Greenwood a trabalhar com Frank Ocean... Se fosse hoje, ninguém piscaria sequer por ver os Aerosmith a trabalharem com os Run DMC. Como diria Loretta Lynn, “we’ve come a long way baby”...

O novo trabalho de Frank Ocean oferece ao mundo um corpo novo, um álbum que está muito menos interessado em revelar a negro (não é piada) os contornos dos seus desenhos, do que mostrar criações mais abstratas, fluídas, que não se contentam em fincar os pés numa única linguagem, antes preferem a hipótese mais do que válida (e bem vinda) de deambular entre géneros, dispensando sublinhados rítmicos (“Skyline To”), transformando a voz para lá do reconhecimento imediato (“Nikes”), curvando os “features” não a um plano de marketing, mas a um genuíno jogo criativo que não cede à tentação de colocar as colaborações sob um holofote e opta antes por desafiar cada um – Greenwood, James Blake, Andre 3000, Kendrick Lamar... – a abandonar terreno familiar e a fazer algo de diferente: Kendrick escreve, sobretudo; Andre parece pegar no trap, multipicar o flow típico por três e avançar a direito por cima de um piano resgatado a um filme de suspense e pinceladas electrónicas que poderiam ter saído de um disco de Aphex Twin; James Blake faz sabe-se lá o quê.... E depois saem coisas como “White Ferrari”. Yummy.

Não é hoje que vão ficar a perceber o Frank Ocean, mas espero pelo menos convencer uns quantos a investirem o trabalho de atenção que Blonde exige. Palpita-me que as recompensas que repetidas audições poderão revelar irão estampar muitos sorrisos nos rostos mais improváveis. Coragem, Pedro!