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Ryley Walker no Vodafane Music Sessions

Rita Carmo

A grande beleza dos concertos pequenos

Em Paredes de Coura, mesmo os concertos com mais público conservam algum intimismo - um dos segredos da magia deste festival

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Ele chega ressacado e algo confuso. Afinal, não será todos os dias que Ryley Walker, músico de Chicago – cidade que, segundo o próprio, não fica a dever muito à beleza – tem um concerto marcado para as escadas de uma igreja barroca. “Isto aqui é mágico. E vocês são tão bonitos. Quero ser um de vós!”.

Pode soar a conversa barata e truque para engatar o público, mas ao longo do festival os elogios das bandas sucederam-se em catadupa, fazendo-nos crer que os artistas se sentem genuinamente em casa em Paredes de Coura.

Além dos concertos no recinto principal, este ano alguns festivaleiros escolhidos no campismo voltaram a poder assistir a várias atuações exclusivas: os russos Motorama levaram o seu pós-punk algo glaciar ao tórrido cimo do monte; os californianos Crocodiles foram a casa de um nonagenário casal courense tocar no quintal, e Ryley Walker transportou a guitarra para as escadas da igreja do Espírito Santo, na vila de Paredes de Coura.

O que ali se ouviu foi uma meia-dúzia de canções do próprio norte-americano, que acaba de lançar um novo álbum, intitulado Golden Sings That Have Been Sung, e também uma versão de “If I Were a Carpenter”, original de Tim Hardin, encarnado entre outros pelas lendas Johnny Cash & June Carter. Mas não foi só isso que ouvimos, e sentimos, sentados nas escadas da igreja.

A paz com que todos vimos Ryley Walker dedilhar a guitarra acústica e soltar a voz potente que, atrás de nós, despertou surpreendentes comparações a Eddie Vedder; o discreto contentamento do músico, que mais tarde tocaria no palco principal do festival, já com banda; a ausência de pressa, ansiedade ou atropelos, num instante de simples fruição da música. Tudo isto vale ouro e fez-me pensar na importância de podermos beber estes momentos criativos de forma tão livre.

O concerto não terá sido insólito apenas para Ryley Walker: também não é todos os dias que nós, os civis, temos estas oportunidades, e que bom seria podermos transportar a paz de espírito daquela meia hora para o nosso quotidiano.

À falta de melhor, convosco partilho um pequeno vídeo que fiz, alapadinha ao lado da igreja. Que à vossa semana possa emprestar um pouco daquele sossego e daquela beleza.