Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Opinião

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Prince: caos e desordem (quatro meses depois)

O título de um disco editado há 20 anos parece ser uma descrição possível para a falta de arrumação para os destinos que a obra de Prince continua a conhecer quatro meses após a sua morte. E entretanto alguns discos descatalogados começam a surgir a preços astronómicos

Era difícil encontrar vídeos com as suas atuações ou excertos da sua música na Internet. Os telediscos nem sequer estavam disponíveis online. Mas, quatro meses após a morte de Prince, o caos e a desordem invadiram o mundo virtual. E parte daquela que era uma das obras mais “protegidas” pelo seu autor está neste momento à distância de um clique.

Já esteve mais desordenada ainda, aqui há algumas semanas... Mas nem ele mesmo poderia imaginar que, 20 anos depois de ter dado esse título a um álbum seu – Chaos and Disorder foi o álbum que surgiu entre Gold Experience (1995) e o grito (triplo) do Ipiranga que daria depois em Emancipation (1996) – essas duas palavras estariam, afinal, a ser aplicadas aos destinos da sua música.

Com a posse dos seus bens entregue a um verdadeiro imbróglio jurídico – que não será de solução rápida nem fácil – a obra de Prince não está, ao invés da de David Bowie (que nos deixou também este ano) ainda a ser enquadrada por um plano estratégico que transcenda o que possam ser iniciativas pontuais das editoras pelas quais foi lançando o seu catálogo.

A Warner, que já tinha em curso uma campanha de lançamentos de reedições em vinil quando a notícia da sua morte nos chegou, manteve-a em curso, assegurando para já a disponibilização, em LP, da sua discografia registada até ao início da década de 70. Sessões para rádios e concertos transmitidos em diversas estações, têm chegado ao formato de CD a um ritmo regular. Porém, não há ainda sinais de uma qualquer operação de âmbito antológico (como as das caixas de Bowie que estão a dar que falar) nem mesmo uma eventual campanha de reedições dos títulos lançados depois do ano 2000 que há muito têm as suas edições esgotadas. Houve uma exceção recente para uma reedição de MPL Sound (de 2009) em CD e chegou a estar anunciada na Amazon uma prensagem em vinil de Lotusflo3er, que entretanto mudou o seu estatuto para “indisponível”...

O habitual surto de interesse pela obra de quem nos deixa marcou as listas de vendas após a morte de Prince. Mas, entre finais de abril e inícios de maio, só surgiram nas tabelas os “best of” e aqueles discos do seu fundo de catálogo que ainda estão habitualmente disponíveis. Assim como os mais recentes, editados nos últimos três anos. Os restantes, entretanto, abriram apetites a tal ponto que há já quem peça fortunas por uma cópia de alguns deles.

Um passeio por lojas online mostra o álbum quádruplo The Crystal Ball (editado em 1998, juntando alguns inéditos, entre os quais temas dos dois álbuns gravados, mas não lançados, que Prince criou entre Parade e Sign ‘o’ The Times) a ultrapassar os 700 euros! Rainbow Children, um flirt jazzístico editado em 2001, a alcançar os 460 euros. E News, um álbum instrumental de 2003, pode surgir a preços que passam os 400 euros. Todos eles preços para edições em CD.

A uma política de reedições que volte a ter a discografia disponível em suportes físicos – e só o Tidal a tem para streaming, o que representa (pelo menos aqui) a continuação de um pensamento estratégico – falta depois ordem para entrar no mítico “cofre” e dele fazer sair os discos que ficaram por editar. Que tanto podem ser Dream Factory e Camille (os tais gravados e arquivados entre 1986 e 1987), como muitos outros dos quais nunca sequer ouvimos falar...

Que haja ordem e se ordene o caos. Os admiradores de Prince vão agradecer.

  • Querido mês de agosto

    Opinião

    Nem só de propostas light para ouvir e esquecer pouco depois vive a história dos fenómenos da música pop nascidos no mês de agosto. Aqui ficam cinco exemplos de clássicos que nasceram quando o calor apertou

  • “Revolver” dos Beatles faz 50 anos

    Opinião

    Assinala-se amanhã a passagem de meio século sobre um disco de grande peso na obra dos Beatles, já que traduziu (em 1966) a abertura da sua música a outros horizontes e desafios. 50 anos depois, Revolver é reconhecido como um clássico maior da história da música do século XX