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The Get Down

O hip-hop faz-se de heróis, não de vilões

A história do hip-hop inspira The Get Down, a nova série da Netflix com assinatura de Baz Luhrmann que acaba de estrear

Não é complicado de entender que o hip-hop possa ser saco de pancadas para a retórica vazia do racismo disfarçado de pensamento “politicamente incorrecto” que anima discursos que parecem inflamados pela ascensão de Trump. Algo que acontece um pouco por todo o planeta e até mesmo em Portugal, como ficou claro (piadinha...) numa recente crónica no Expresso Diário da autoria de Henrique Raposo com o título “A eterna vitimização do homem negro”.

Mesmo que todos optemos por uma conveniente amnésia que nos faça ignorar que na América o “homem negro” viveu mais tempo subjugado pela escravatura e pelas leis Jim Crow do que em plena liberdade, mesmo que se assobie para o lado enquanto se finge que as estatísticas não apontam sem margem para dúvidas para uma aplicação discriminatória da força e da lei nessa mesma América, pensar que o hip-hop é culpado de alguma coisa e não reflexo de algo maior é apenas tonteira de quem ainda pensa que sim, que é possível tapar o sol com uma peneira.

Mas todos vamos ainda a tempo de aprender e evoluir e nesse sentido podemos fazer muito pior do que devotar algum tempo aos seis episódios da primeira temporada de The Get Down, a semi-fantasia de Baz Luhrmann que a Netflix acaba de estrear.

Luhrmann é aquele tipo que desde pelo menos Strictly Ballroom e Romeo + Juliet gosta de pintar frescos maiores do que a vida, barrocos para o mal e para o bem, excessivos na sua encenação operática. O que ele retirou da ideia dos contos de fadas foi os pós de pirlimpimpim capazes de distorcer a realidade e fazer todas as personagens flutuarem uns quantos metros acima do chão, mas isso não é necessariamente um defeito quando se quer contar histórias povoadas de arquétipos. Mas pronto, não sou crítico de cinema e não me quero meter muito por aí.

Cinco episódios adentro, há alguns méritos que se podem e devem atribuir a The Get Down: não pinta de cor-de-rosa o arranque da história do hip-hop e, ainda que inunde de fantasia o que aconteceu no Bronx (Grandmaster Flash como um mestre samurai que ensina os seus discípulos através de rebuscadas alegorias, os writers que enchem a cidade de graffiti como uma espécie de descendentes directos dos mestres renascentistas, etc), não esquece o cenário político que elevou Ed Koch ao poder autárquico (que assumiu entre 1978 e 1990), o facto do Bronx se parecer muito mais com a Beirute destruída pela guerra do que com o resto de Nova Iorque, as tensões raciais que já então condicionavam as perspetivas de quem crescia no “bairro”.

Nesse cenário – e por incrível que possa parecer – o hip-hop afirmou-se como terreno de heróis, não como antro de vilões: cultura de superação e de elevação, negra, branca e hispânica desde o arranque, que funcionou sempre como um espelho, um reflexo, uma consequência até do ambiente circundante. Que o hip-hop se tenha ainda assim tornado numa força cultural global, capaz de existir acima de fronteiras, culturas, credos e cores, é a prova mais cabal de que é uma força erguida por heróis, gente com força para transformar o mundo. Não é - claro que não é - uma força destruidora. É isso que The Get Down nos mostra. E só por isso merece ser vista.

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