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Querido mês de agosto

Nem só de propostas light para ouvir e esquecer pouco depois vive a história dos fenómenos da música pop nascidos no mês de agosto. Aqui ficam cinco exemplos de clássicos que nasceram quando o calor apertou

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Diz-se que estamos na silly season... Uns anos mais do que nos outros (e no campo das notícias este agosto de 2016 convenhamos que até não tem dado descanso aos jornalistas). Mas nas frentes do lazer a coisa tende a ser tranquila... No cinema, tirando um ou outro caso de exceção, faz-se a tranquila gestão de alguns acepipes para roubar gente às tardes e serões quentes, preparando-se baterias para lançar os títulos mais fortes na rentrée. Nos livros, a oferta para ler em férias foi já apresentada e a nova fornada de apostas chega quando os dias começarem a encurtar. Contudo, na música, apesar da escassez de edições, os meses de agosto não se fazem apenas de curiosidades light para mastigar e deitar fora.

Se bem que seja essa a ementa mais habitual por estes dias quentes, ao longo dos anos houve lançamentos e êxitos maiores que fizeram história no mês de agosto. Vamos recordar cinco deles, olhando para o que aconteceu a cada dez anos entre 1956, o verão número um do definitivo “boom” de uma nova cultura jovem e 1996. 2006 está ainda perto demais para entrar nestas coisas da memória (nada como os intervalos de vinte anos para que a erosão que o tempo aplica às coisas deixe mais bem definido o que ficou registado na memória coletiva)...

1956. “Que Sera Sera (Whatever Will Be Will Be)”, Doris Day

Quando se fala do nome de Doris Day, é quase certo que a melodia desta canção se desenhe nas nossas mentes. Está entranhada. Devemo-lo, em primeiro lugar, a Alfred Hitchcock que, como em outros filmes nesta etapa da sua carreira, entregou a banda sonora a Bernard Herman. Porém, tendo Doris Day como co-protagonista (ao lado de James Stewart), pediu ao compositor Jay Livingston e ao letrista Ray Evans uma canção para a voz da atriz em O Homem Que Sabia Demais. Gravada logo depois pela própria Doris Day, a canção ganhou vida, cresceu e multiplicou-se. O single chegou ao número 2 nos EUA e número 1 no Reino Unido (em agosto de 1956), surgindo depois em vários outros filmes e, por anos a foi, fez o genérico do programa que a atriz e cantora teve na televisão. Num verão em que o rock’n’roll somava êxitos (entre os quais “Heartbtreak Hotel” de Elvis Presley), o classicismo da pop ligeira dos anos 50 teve aqui um dos seus últimos casos com expressão global com capacidade de competir taco a taco com as vozes das novas tendências. Depois de Doris Day, a canção continuou a ter novas vidas, em versões com nomes que vão das Shirelles aos Sly and The Family Stone, além de traduções para línguas como o tamil, o japonês ou mandarim.

1966 “Yellow Submarine”, The Beatles

Confirmando os sinais de mudança sugeridos em Help! e aprofundados em Rubber Soul, ou seja, os álbuns que tinham editado em 1965, os Beatles apresentaram nos primeiros dias de agosto de 1966 um álbum que abria espaço a novas potencialidades de trabalho que o grupo começara a abordar e já com resultados bem nítidos, e que resultavam de uma nova abordagem ao estúdio não apenas como a casa que acolhe a gravação mas, afinal, também ele uma ferramenta ao serviço da construção e moldagem da música.

Editado no mesmo dia em que saía o álbum Revolver, um single com as canções “Yellow Submarine” e “Eleanor Rigby” chegava aos escaparates das novidades, deixando claro nestes dois temas extraídos do LP como havia sinais de novos desafios instrumentais na música dos Beatles. Em “Eleanor Rigby” era usado um octeto de cordas. E em “Yellow Submarine” entravam em cena sugestões de “efeitos especiais”, usando aqui o produtor George Martin a sua experiência anterior em discos de comédia para ajudar os “fab four” a criar os ambientes nos quais ganhou forma uma canção que rapidamente entrou no cânone dos clássicos do grupo, vincando mais ainda esse estatuto quando, pouco depois, foi chamada a dar título a um filme de animação criado com canções dos Beatles.

1976. “Dancing Queen”, Abba

A canção deve ser dos êxitos maiores da história da música pop e teve uma pré-história que na idade da Internet nunca seria possível ter sido tão longa e tão silenciosa. Começou a ser trabalhada no verão de 1975 e foi estreada em programas de televisão na Alemanha e Japão na primavera de 1976 e oficialmente mostrada pela primeira vez na Suécia numa gala que antecedeu o casamento do rei, em junho desse ano.

Porém, só quando o single foi lançado, em agosto de 1976, o mundo inteiro ouviu finalmente “Dancing Queen”, que não só confirmou que o grupo conseguira já alicerçar uma carreira internacional para além do cartão de visita eurovisivo de 1974, como mostrou primeiros sinais de assimilação europeia de uma visão pop do emergente fenómeno disco sound. Estre protagonismo que os Abba aqui logo chamam a si definiria mesmo uma das linhas mestras da sua criação pop na segunda metade dos anos 70, que somaria a “Dancing Queen” outros êxitos colossais feitos de diálogos entre o “disco” e a canção pop, entre os quais “Voulez Vous” ou “Gimmie Gimmie Gimmie (A Man After Midnight”). Este clássico de 1976 nunca mais deixou de ser escutado na rádio, conhecendo também outras leituras, dos Communards aos U2.

1986. “Don’t Leave Me This Way”, Communards

Revelado em 1984 como vocalista dos Bronski Beat que, com o álbum The Age of Consent, levavam pela primeira vez canções de temática LGBT “sem filtro” a um patamar de visibilidade pop maior, Jimmy Sommerville formou, pouco depois, uma segunda banda. Convocando o pianista de formação clássica Richard Coles fez dos Communards uma frente de trabalho musicalmente dedicada a explorar tanto os encontros das novas electrónicas com as heranças do disco e do hi-nrg que promovera já nos Bronski Beat como uma mais polida abordagem a composições focadas na relação da voz com o piano, vincando mais ainda, em ambos os casos, um posicionamento ideológico de clara oposição às políticas de Margaret Thatcher.

Tal como o fizera nos Bronksi Beat, Jimmy Sommerville entendeu abrir contudo nos discos dos Communards um espaço de libertação e festa, convocando clássicos do “disco” que transformava segundo as qualidades sonoras da sua banda e do seu tempo. E, tal como o fizera (nos Bronski Beat) com “I Feel Love” de Donna Summer e, depois, já nos Communards, com “(You Make Me Feel) Mighty Real” de Sylvester, em 1986 partiu de “Don’t Leave Me This way”, um tema de 1975 de Harold Melvin & The Blue Notes, reinventado em 1976 por Thelma Houston, e dele fez aquele que deve ter sido o hino pop mais dançado desse verão de 1986.

1996. “Se a Vida É (That’s The Way Life Is)”, Pet Shop Boys

Antigo jornalista musical – chegou a ser editor na revista “Smash Hits” – o vocalista dos Pet Shop Boys, Neil Tennant costuma descrever o período de maior sucesso de uma banda, ou seja, aquele em que os discos se sucedem a bom ritmo e todos eles com tremendo impacto global, como sendo a sua “fase imperial”. E, depois de uma auspiciosa entrada em cena com uma segunda versão de “West End Girls” em 1985 e uma confirmação de que não eram “one hit wonders” com “Suburbia” (1986), foi entre “It’s a Sin” (1987) e “Left To My Own Devices” (1989) que os Pet Shop Boys viveram a sua. Houve grandes êxitos depois, de “So Hard” a “Go West”, entre outros. Mas ali, naquele intervalo, eram uma força pop colossal com impacte nas vendas em todo o mundo. Estão por isso já algo afastados dessa “fase imperial” quando, em meados dos anos 90, editam um álbum que traduz por um lado as sensações de calor e festa que conheceram em terreno sul-americano. E que sugere, logo pelo título, uma abertura de diálogos a outras línguas: precisamente as que escutaram por essas geografias. À língua portuguesa coube assim um episódio de exposição global através de um dos versos do refrão de uma canção que, ritmicamente, não esconde um encantamento por descobertas feitas no Brasil. Já a conclusão “that’s the way life is”, que surge depois do lançamento da frase (quase em jeito de pergunta) “se a vida é”, parece constatação de um fado. Mas com pouca melancolia. Ou, pelo menos, adiada até que acabe o verão.