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The Walkmen

Rita Carmo

A arte de saber acabar

Os Walkmen terão sido uma das poucas bandas a perceber qual a melhor altura para fazer “pause” na carreira e procurar respirar noutros recantos

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Devo confessar que, enquanto consumidora de informação online, tenho um péssimo hábito, do qual várias vozes amigas já me tentaram dissuadir: depois de lido o artigo, faço scroll down e leio os comentários. Em 95% dos casos, a minha fé na humanidade sai abalada, mas ocasionalmente a curiosidade mórbida traz algo de bom. Assim aconteceu quando, em 2014, os norte-americanos The Walkmen, banda que acompanhei sobretudo a partir do ótimo You & Me, anunciaram uma paragem sem fim à vista. “Devem ter-se cansado de tocar em festivais a meio da tarde, sempre de fato vestido”, escreveu alguém. A imagem é eficaz na ilustração de um certo beco sem saída em que a banda parecia, efetivamente, estar.

Contemporâneos e conterrâneos da fornada do novo rock dos anos zero-zero (ver Strokes, White Stripes, Yeah Yeah Yeahs), os The Walkmen sempre estiveram um pouco à margem desse mesmo movimento; lembro-me que, quando tinha uma fanzine chamada Indies & Cowboys, o maior adepto de discos como Bows + Arrows (o álbum da canção “The Rat”, o mais próximo que Hamilton Leithauser e companhia estiveram de um êxito) era o nosso camarado mais dado ao punk. Mas a rapaziada de Filadélfia & Nova Iorque sempre teve uma faceta mais delicada e imprevisível, como fica bem visível pela edição, em 2006, de um álbum – “Pussy Cats” Starring the Walkmen – que recria, canção a canção, o álbum de 1974 do malogrado Harry Nilsson, então produzido por John Lennon.

Em 2008 chegava o disco que fez de mim fã dos Walkmen. Frequentemente comparados aos The National, os cinco rapazes faziam aqui o seu Alligator, não necessariamente pela sonoridade explorada em «Canadian Girl» ou «In The New Year», mas pela singularidade (e insularidade) do álbum na sua discografia e também pelo impacto que teve na minha relação com a banda.

Apaixonada por este disco, vi-os dar um concerto arrasador no Tivoli, em 2008, e encontrei-o numerosas vezes por esses festivais fora: no Primavera, no Super Bock Super Rock (ainda no Meco e também no Estádio do Restelo)… como diria o outro, muitas vezes sob o braseiro do sol e sempre de fato. Pelo meio, consolidava-se a paixão entre a banda e o público português: o concerto no Coliseu de Lisboa, em 2010, foi, segundo os próprios, um dos melhores do seu palmarés; o guitarrista Paul Maroon veio viver para Portugal; o álbum de 2010 chama-se Lisbon.

Dois anos mais tarde, um regresso ao Coliseu dos Recreios foi “despromovido” para a sala TMN ao Vivo, onde – diz quem viu – os Walkmen ainda ofereceram um belo espetáculo aos acólitos à beira Tejo reunidos. Cerca de um ano depois, a notícia do fim ou, como se usa dizer hoje em dia, pois nunca se sabe quando poderá acontecer um regresso, do hiato ou pousio.

Não sendo mau, o último disco dos Walkmen, Heaven, de 2012, demonstrava já um certo cansaço e alguma falta de frescura. Ao vivo, e é nesse campeonato que se joga a carreira das bandas hoje em dia, o grupo não saltava do meio dos cartazes. Ao sol, de fato. Em finais de 2013, os Walkmen entraram no ano novo com outros planos que não a banda dos últimos dez anos. Desde então, tanto o vocalista Hamilton Leithauser como Peter Bauer e Walter Martin têm feito o gosto a outros projetos. Ainda de fato, Leithauser até já trouxe o disco a solo, Black Hours, de 2014, a Paredes de Coura.

Mas a novidade mais saborosa no que respeita aos artistas anteriormente conhecidos como The Walkmen parece ser mesmo a colaboração prevista para setembro: Hamilton Leithauser e Rostam Batmanglij, que recentemente abandonou os Vampire Weekend, lançam no fim do verão I Had a Dream That You Were Mine. As primeiras amostras – o tema-título e a deliciosa “In a Black Out” auguram o melhor para um disco que promete devolver a frescura que ia faltando a Leithauser na casa-mãe.

Mais uma vez: acabar, em 2016, não significa quase nada (e que o digam os fãs dos LCD Soundystem, que regressaram aos concertos meros cinco anos depois do adeus). Mas os Walkmen terão sido uma das poucas bandas a, nos últimos anos, perceber qual a melhor altura para fazer “pause” na carreira e procurar respirar noutros recantos. Possivelmente sem tantos fatos e tanto sol de festival.