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11 coisas que recordo do meu primeiro festival Sudoeste

Foi em 2002 e fui à “civil”, sem bloco de notas. Houve rock intoxicado, cerveja non-stop, um mega calhau na tenda e Belle & Sebastian

Descobri o festival da Zambujeira do Mar à sexta edição. E quis o destino que lá fosse sem qualquer incumbência profissional. Festivaleiro (mal) equipado, lá rumei eu ao festival do sudoeste alentejano, o maior do país, com um camarada também em tempo de pousio. Ele já lá tinha estado. Eu só tinha passado pelo “Sudoeste espanhol”, o festival de Benicàssim. Claro que nos enganámos no caminho e a viagem a partir de Lisboa demorou umas boas quatro horas – tempo para cantarmos em plenos pulmões “Dry The Rain”, da Beta Band, quinze a vinte vezes, e ouvirmos os dois volumes de Past Masters, dos Beatles, também com direito a reprise. Por estranho que pareça, o meu plano era lá ficar só no dia de receção ao campista – o capital era escasso – e tudo porque o cartaz elencava para essa noite concertos de Beta Band e Belle & Sebastian, duas bandas que trazia no coração (Sigur Rós também estava nos bilhetes, mas o cancelamento dos islandeses já era conhecido). Acabei por me deixar contagiar (até porque ao segundo dia havia Black Rebel Motorcycle Club) e é de tudo isto que me lembro:

1. Montámos a tenda num lugar que nos parecia apropriado e que, em fim de noite, se nos afigurou sempre como bom porto. Quatro dias depois, ao desmontá-la, percebi que dormi sempre em cima de um gigante calhau de forma irregular e que aquela permanente impressão nas costas não era necessariamente reflexo da má vida.

2. Deixávamos os telemóveis, desligados, na tenda, indo lá apenas três ou quatro vezes por dia para verificar a ocorrência de alguma mensagem importante. Nunca houve uma mensagem importante.

3. Quatro horas de sono por noite. Quatro ressacas. De manhã, a tenda era uma sauna. Todo o arrependimento do mundo até à primeira cerveja, por volta do meio-dia, instigadora de mais uma jornada.

4. Toda a gente à volta parecia conhecida. E a verdade é que muitos eram mesmo conhecidos: amigos do Porto, de Braga, de Coimbra, de Setúbal… Nada combinado, muitas surpresas, alguns reencontros e as devidas apresentações colaterais. O amigo de Setúbal levou moscatel e o moscatel chegou para nós.

5. A primeira noite foi a mais calma e não havia muita gente a ver Beta Band e Belle & Sebastian. Adorei os dois concertos, mas fiquei entristecido com a relativa indiferença com que foram recebidas duas das bandas que mais estimava (e continuo a estimar).

6. Ao segundo dia, outro amigo e camarada de profissão que por lá laborava resolveu pagar-nos um número pouco sensato de cervejas. Chegámos ao intoxicado concerto de Black Rebel Motorcycle Club já impróprios para consumo. Um delírio: aquelas guitarras entre o garage e o shoegaze operaram maravilhas – e mandaram-me abaixo. Vide ponto 7.

7. Não me recordo de os Air terem atuado no Sudoeste 2002. Mas estiveram lá, rezam as crónicas. Nessa altura, sem me conseguir levantar, telefonei a uma amiga que ainda estava pior (ou melhor?) do que eu (e que acabei por não ver em todo o festival). E vi outra a mostrar intenção de me retemperar com uísque de malte (o que não sucedeu). “Acordei” com Chemical Brothers e a vaga impressão de que a vida começava outra vez. Superstar DJs, here we go.

8. Cada vez mais apanhado das costas, ao terceiro dia o meu festival foi – outra vez – a festa da cerveja. Nem André Indiana, Charlie Brown Jr. ou Orishas me diziam grande coisa. De Peter Murphy só me lembro de o homem segurar uma espécie de globo luminoso. Alanis Morissette? Percebi, dias depois, que esteve por lá.

9. Não prestei atenção ao concerto dos Muse, então uma jovem esperança do rock pomposo, porque entendia que o tipo cantava, ofegante, à Thom Yorke – e Thom Yorke há só um.

10. Achei os Cure velhos e só liguei as antenas para os êxitos. Seis anos depois, estive no Pavilhão Atlântico, não achei os Cure velhos e liguei as antenas também para os temas menos óbvios. Talvez me tenha tornado fã dos Cure algures pelo meio.

11. Encontrei o Fernando Alvim numa fila para uma casa de banho. Alguém nos tirou uma foto (que eu nunca vi). Conheci o Fernando Alvim um ano depois.