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“Revolver” dos Beatles faz 50 anos

Assinala-se amanhã a passagem de meio século sobre um disco de grande peso na obra dos Beatles, já que traduziu (em 1966) a abertura da sua música a outros horizontes e desafios. 50 anos depois, Revolver é reconhecido como um clássico maior da história da música do século XX

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Dali em diante nada seria como dantes. Vivia-se o último ano em que os Beatles tinham o palco na sua agenda de trabalho (depois de 1966 só voltariam a tocar em público, ao vivo, na célebre atuação no telhado da sede da Apple Corps em janeiro de 1969). Estava também a chegar ao fim uma etapa na qual a Capitol Records, que os representava nos Estados Unidos, criava edições especiais para o mercado americano, só dali em diante os discos tendo passado a ter as mesmas capas e os mesmos alinhamentos dos dois lados do Atlântico. Mas, acima de tudo, o ano avançava sob os ecos de duas realidades maiores. Bob Dylan, que tinha ligado a eletricidade à sua música no verão de 1965 (atitude que os fab four aplaudiram), chocara – tal como em Newport – muitos dos que o foram ver em Londres, ao Royal Albert Hall, em finais de maio. Ao mesmo tempo, o estúdio entrava em cena como mais do que apenas uma casa para gravar: era também um instrumento, fonte de sons e de soluções nunca antes experimentadas. Pet Sounds, dos Beach Boys, editado em maio desse mesmo ano, deixara claras as potencialidades que, de facto, o estúdio abria aos músicos. Mas, a 5 de agosto de 1966, o sucessor de Rubber Soul mostrava que, uma vez mais, os Beatles estavam também na linha da frente dos acontecimentos.

Chamaram-lhe Revolver e, mais ainda do que nesse disco de finais de 1965, com ele abriram definitivamente o caminho para uma segunda etapa que viu uma maior contribuição criativa de George Harrisson e do próprio Paul McCartney e que abriu horizontes a novos quadros de ideias que acabariam por gerar os mais importantes e influentes de todos os seus discos.

O álbum começou por nascer de uma vontade inicial em experimentar outras possibilidades de ambiente de trabalho, tanto que foram levantadas as hipóteses de o gravar nos estúdios da Stax (em Memphis), depois em outros também nos EUA e com novos produtores em vista. Acabaram contudo a regressar a Abbey Road, trabalhando contudo no mais íntimo estúdio 3, e novamente com George Martin a produzir. Tendo declinado a sugestão de fazer uma nova longa-metragem de ficção – sugerida pelo manager Brian Epstein – tinham três meses de agenda livre pela frente. E aproveitaram-na ao minuto.

O início das sessões gerou os temas “Rain” e “Paperback Writer” que acabariam editados em single e fora do alinhamento do álbum (algo que era já regra nos Beatles). Mas aos poucos foram surgindo novas canções e, com elas, novas soluções. “Tomorrow Never Knows”, que foi das primeiras a ser trabalhada, colocava em cena a exploração das máquinas em estúdio, criando rebobinados e procurando efeitos de captação que destaparam novos caminhos, num esforço que teve importante contribuição de Geoff Emerick, um jovem engenheiro de som com 20 anos que, entusiasmado, os acompanhou nestes trilhos de descoberta na qual, de certa forma, nasce a vivência psicadélica dos Beatles (num mesmo tempo em que os emergentes Pink Floyd representavam, em noites nas quais se apresentavam regularmente em Londres, a visão mais apurada desses acontecimentos em curso).

O encantamento de George Harrison pela cultura indiana e os sons da música que ali estava a descobrir materializou-se num primeiro diálogo com a música dos Beatles em “I’m Only Sleeping”, tema pelo qual passavam também marcas das mesmas explorações em estúdio que estavam em curso, mas introduzindo o sitar no quadro instrumental da música do grupo (outros episódios aconteceriam nos discos seguintes). Igualmente ousada na forma foi a opção de arranjo para “Eleanor Rigby”, um ensaio sobre solidão que acabou tocado por um octeto de cordas. Menos ousada na forma, mas igualmente temperada a novas sonoridades nos arranjos, a canção “Yellow Submarine” surge neste alinhamento, acabando mais tarde por ter outra dimensão com a criação do filme de animação que tomou o seu nome como título.

Se na música Revolver revela a respiração de novas ideias e soluções, também na hora de pensar as imagens os Beatles tiveram em conta a vontade de experimentar. Com “Rain” e “Paperback Writer”, mesmo fora do álbum, criaram os seus primeiros filmes promocionais (antepassados dos telediscos). Para a capa do álbum chamaram depois um velho amigo dos tempos vividos em Hamburgo em finais dos anos 50. Klaus Voorman, que a desenhou numa técnica mista que envolvia também a colagem, criou aqui uma das mais icónicas das capas dos Beatles.

Cinquenta anos depois Revolver é um clássico. Vemo-lo frequentemente nas listas dos melhores álbuns de sempre e disputa muitas vezes com Sgt. Peppers, The Beatles (ou seja, o “álbum branco”) “Abbey Road o título de disco preferido dos fab four junto de admiradores e publicações. Não era má ideia que, um dia, tal como os Beach Boys o fizeram numa caixa dedicada a Pet Sounds, o acervo do “work in progress” que conduziu ao alinhamento final do disco fosse também alvo de uma edição antológica tão exaustiva quanto essa que recorda o período mais criativo da obra de Brian Wilson. Será bem vindo, quando assim o decidirem, esse olhar de perto sobre o processo que levou os Beatles a descobrir novos caminhos para a sua música. Mas, como tudo nas edições ligadas ao grupo, as coisas fazem-se devagar e uma de cada vez. E para este ano já temos prometido, para setembro, o disco ao vivo The Beatles At The Hollywood Bowl, que chegará em tempo de acompanhar a estreia em sala sobre Eight Days a Week, documentário de Ron Howard sobre a vida dos Beatles nos palcos. Um capítulo que encerrou, precisamente, com a edição de Revolver. Isto anda tudo ligado...