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O vinil entrou (literalmente) na corrida ao espaço

Uma canção construída com samples da voz de Carl Sagan e Stephen Hawking vai ser o primeiro single em vinil a ser tocado por um novo gira-discos construído pela Third Man Records para funcionar... no espaço. O lançamento é este sábado

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

O sonho de levarmos coisas para o espaço (além de nós mesmos) é coisa antiga. E entre as mais antigas manifestações (escritas) desses desejos está a História Verdadeira assinada por Luciano de Samóstrata (ca. 125-180), filósofo grego que viveu já sob o jugo romano e que ali sugeria uma primeira viagem espacial, levando os seus heróis até à Lua com a ajuda de uma ventania descomunal... Tomámos o gosto pela coisa e, depois de muito fantasiar sobre viagens espaciais (sobretudo entre os séculos XVII e XIX), a alvorada da astronáutica começou a tornar algumas dessas ideias em factos no século XX. Da cadelinha russa Laika à macaca americana Miss Sam, seguindo-se uma multidão de astronautas, a lista daqueles que visitaram já o espaço cresce todos os anos e é já considerável. E a bordo nas naves em que viajaram levaram já muitos objetos e propostas de lazer. E a música tem habitado entre as suas prioridades.

Vale a pena lembrar que, tal como a escrita de ficção, também a música nos ajudou a sonhar com o espaço. E se houve várias peças dedicadas à Lua como fonte de inspiração ao longo dos séculos, por alturas da I Guerra Mundial o compositor Gustav Holst chegou mesmo a criar uma suite dedicada aos planetas do sistema solar (Plutão nem estava então descoberto, estando mais distante ainda a sua posterior “despromoção”). A música popular também aprendeu cedo a olhar para o firmamento. E do mítico “Space Oddity” de Bowie (com o qual a BBC fez o genérico das emissões de cobertura da Apollo XI em 1969) às visões space disco dos anos 70, é também vasta a banda sonora sci-fi que sucessivas gerações foram cantabdo.

Chegamos agora a uma etapa na história da astronáutica em que são os astronautas e as geringonças espaciais quem pode levar novos equipamentos e instrumentos para fazer ouvir música no espaço.

Ainda há poucas semanas foi publicado entre nós o livro do astronauta canadiano Chris Hadfield que ficou célebre não apenas pelas extensas missões a bordo da Estação Espacial Internacional mas também pelo uso que fez das redes sociais para partilhar imagens, pensamentos e... canções. Num dos vídeos que criou na órbita da Terra, cantou uma versão de “Space Oddity”, acompanhado por uma guitarra acústica que com ele viajou. Milhões de visualizações fizeram desse o primeiro “teledisco” de grande sucesso nascido em ambiente extra-errestre!

Agora um novo passo na conquista musical do espaço chega este sábado através de uma ideia da Third Man Records, a editora de Jack White que se tem especializado em edições invulgares em vinil e na criação de gira-discos igualmente engenhosos. O desafio de levar o vinil ao espaço levou a editora a criar um aparelho especial capaz de resistir às condições a que será sujeito no espaço. Chamou-lhe “the Icarus Craft” e será associado a um balão de alta altitude numa primeira missão. A bordo levará o master, coberto a ouro, de “A Glorious Dawn”, de Carl Sagan. O disco apresenta uma canção criada por John D. Bowell, músico norte-americano essencialmente centrado no trabalho com música electrónica que partiu de samples da voz de Carl Sagan e Stephen Hawking para criar um tema que a mesma Third Man Records lançou num formato de single em 2009. Agora, o single terá, literalmente, um “lançamento” mais mediático.

Podem ouvir aqui a canção que soará no espaço.

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