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Opinião

Kendrick Lamar no Super Bock Super Rock

Rita Carmo

Ano Zero, D.K.

11 dias depois da passagem de Kendrick Lamar por Lisboa, Rui Miguel Abreu faz as contas ao futuro

Isto não é sobre o hip hop (mas também é...), nem sobre alguma espécie de resistência cultural a artistas com um tom de pele mais escuro (mas também pode ser...) ou a tudo o que não tenha guitarras e não encaixe nos formatos clássicos que 60 anos de rock nos impuseram (talvez seja um bocadinho sobre isto...), mas sobre a necessidade de quem programa festivais entender de uma vez por todas que a partir de agora será necessário considerar outros factores na hora de desenhar os cartazes.

O concerto de Kendrick Lamar no derradeiro dia da edição 2016 do Super Bock Super Rock foi extraordinário sob múltiplos aspectos: primeiro pelo que se passou em cima do palco - K.Dot é muito claramente um génio que entende o estúdio como um atelier para pintar grandes murais poéticos, feitos de palavras que traduzem a complexa realidade da América presente (a mesma que dispôs no tabuleiro político Donald Trump e Hillary Clinton) e de sons que bebem na rica história afro-futurista da América, de Sun Ra a Parliament/Funkadelic e deles a Dr. Dre, mas tão importante como isso, Kendrick percebeu igualmente como fazer essa visão funcionar em palco, tarefa que, reconheço, o hip-hop nem sempre desempenhou de forma exemplar.

Em segundo lugar, o concerto foi incrível por causa dos anormalmente elevados níveis de empatia entre plateia e palco, público e artista - foi essa empatia que emocionou Kendrick e foi dessa emoção que todos os presentes beberam; mas tão importante como esses dois aspectos distintos é o novo paradigma que tudo isto representa.

Afinal, agora já não se pode apenas olhar para as tabelas de vendas ou para os dados de airplay das rádios ou ainda para as escolhas das agências de publicidade que nos últimos anos também se tornaram em máquinas de fabricar êxitos pop. Já não se pode igualmente considerar como factor determinante na escolha de um artista para cabeça de cartaz de um grande festival a sua história passada com o nosso país: é verdade que Kendrick já tinha estado há um par de anos no Primavera Sound, mas não era o principal cabeça de cartaz e as razões para a sua inclusão num festival que cultiva uma certa "coolness" alternativa vinham mais pelo lado do aplauso generalizado das regiões mais, digamos, "pitchforkizadas" da internet. Kendrick Lamar, ao contrário de artistas como os Massive Attack ou Iggy Pop, para citar apenas dois exemplos também presentes no SBSR, não é um claro "repetente", não pertence aquela classe de artistas que foi crescendo em público, diante dos nossos olhos, ano após ano, evoluindo pelo labirinto de Aulas Magnas, Coliseus e outros palcos que tantos outros nomes resolveram com sucesso ao longo das últimas duas décadas encontrando a saída para o topo dos principais cartazes.

Nada disso. Kendrick Lamar e o que se passou no dia 16 de Julho é o símbolo de um novo paradigma: há hoje novas formas de acesso à música, ainda complicadas de medir, que as novas gerações partilham. Os serviços de streaming facilitam a construção de êxitos que não se traduzem necessariamente em discos vendidos ou em números um nas rádios de maior audiência. O homem de To Pimp a Butterfly é, todos o descobrimos, número 1 nos auscultadores de uma nova geração moldada na internet, permeável também ao que de melhor a América tem para nos oferecer. Vivemos por isso no ano zero, depois de Kendrick. O futuro já chegou.