Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Opinião

Cinco anos sem Amy

Miss Winehouse deixou-nos a 23 de julho de 2011. Cinco anos depois, sobrevivem as canções e uma lição que não é simples de apreender, mas que comporta alguma culpa partilhada

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Lembro-me com precisão inesperada da primeira vez que vi uma menção elogiosa a Back To Black, o álbum que trouxe Amy Winehouse para as nossas vidas. Numa coluna do NME, que então ainda se vendia nas bancas (desde então, passou a publicação gratuita), escrevia-se em letras miudinhas algo como: «Sim, também estamos surpreendidos, mas o seu novo disco é das melhores coisas que vamos ouvir nos próximos tempos».

Estávamos em finais de 2006 e, até então, a rapariga londrina não fizera muitas ondas fora do campeonato do soul/jazz relativamente domado com que se cosia o seu primeiro disco, Frank (canções e sobretudo letras como «Fuck Me Pumps» já indiciavam alguma rebeldia, mas bem longe do que veríamos nos – poucos – anos que se seguiram). Foi há dez anos que o álbum de «Rehab» ou «Tears Dry on Their Own» começou a ser gravado e há quase nove que chegou às lojas, tornando-se de forma relativamente lenta um dos maiores êxitos de vendas e airplay do século que ainda 'ontem' estreámos.

Pouco a pouco, Amy – 23 anos quando lançou o segundo álbum, talento e carisma ridículos mas altamente combustíveis – foi entrando no imaginário da música popular como poucos artistas seus contemporâneos. Em 2008, ano em que apanhou um avião para cair e chorar no palco do Rock in Rio Lisboa, recordo-me de ir à conferência de imprensa do festival e pensar que o seu perfil, delineado numa ilustração do cartaz, se tornara perfeitamente icónico em poucos meses. Amy era uma estrela, prestes a consumir-se com a rapidez de um meteoro.

Pesquisar os arquivos da BLITZ nesses anos é encontrar um sem-fim de artigos em que o nome da filha de um taxista e de uma farmacêutica aparece lado a lado com as palavras «escândalo», «droga» e, resumindo tudo, «autodestruição». O que chegou a parecer refrescante – a espontaneidade da performer, numa era em que tudo o que tem a ver com entretenimento é comunicado de forma controlada e higiénica – rapidamente mostrou o seu lado negro. Lembro-me de, aqui na redação, se escolherem as fotos para ilustrar um artigo sobre o frenesi mediático que a rodeava e propositadamente se deixar de parte algumas imagens verdadeiramente grotescas de uma mulher em acelerada corrida para o fim. Amy teria, por esses dias, 25 anos, mas o seu quarto de século continha em si milénios de dor – a que sentia e a que certamente causava aos que a amavam.

No ano passado, vi no cinema o documentário de Asif Kapadia sobre a passagem de Miss Winehouse por este nosso planeta. No filme, nunca vemos aqueles que aceitaram falar com o realizador – de familiares a amigos, passando por companheiros de profissão e profissionais da indústria –, ouvindo apenas a sua voz. E esta opção parece amplificar o impacto daquilo que ouvimos. Amy pode ter sido, antes de dar começo ao processo de autodestruição assistida, uma cantora brilhante e uma compositora arguta, mas era também filha, colega, amiga. Sobre o papel do pai Mitch no seu calvário já muito se escreveu – a voz de Lauren e Juliette, as amigas que se afastaram de Amy por não quererem compactuar com as suas escolhas suicidas, foi o que mais me marcou no documentário.

Claramente emocionada, uma das jovens, que Asif Kapadia teve de convencer a participar no filme, lembra que, a 22 de julho de 2011, a compincha de infância lhe ligou, depois de meses de silêncio, a perguntar se seria possível reatar a amizade. Entre lágrimas, respondeu que sim. No dia seguinte, a BBC noticiava, ao início da tarde, que Amy Winehouse tinha sido encontrada sem vida no seu apartamento em Camden, Londres. O alerta foi dado pelo seu segurança, a quem, conta o próprio no filme, frequentemente falava do desejo de ter filhos.

Amy teve o sucesso que teve pelo talento imenso que jorrava, pela singularidade das suas canções, mas também, estamos em crer, pela fragilidade humana, demasiado humana, que transmitia a um público - e a uma imprensa - que a adorou e consumiu em iguais doses. Cinco anos depois, sobrevive a música, que espelha essa mesma humanidade, e um ambíguo sentimento de culpa partilhada. Amy pode ter escrito o seu destino, mas poucos de nós poderemos dizer que não a ajudamos a segurar na caneta.