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Leilão vai silenciar uma parte do mundo de David Bowie

Apesar do programa de exposições de apresentação das obras entre Londres, Los Angeles, Nova Iorque e Hong Kong, em novembro a coleção de arte reunida por David Bowie será leiloada. Ganha a economia da família. Mas os seus admiradores ficam a perder

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Durante anos, sem que a desse a conhecer em sede pública, David Bowie foi construindo uma coleção de obras de arte. E este verão, quando passam ainda poucos meses sobre o seu desaparecimento e a exposição de objetos, imagens e outras memórias suas, David Bowie Is, continua ainda a viajar entre salas de museus pelo mundo fora, chega a notícia de que as peças que juntou vão ser leiloadas. A hipótese de as partilhar com o público, juntando-as como expressão de um gosto e traduzindo possivelmente ecos de diálogos com a obra que ele mesmo foi criando ao longo dos anos, desaparece assim do mapa. Convenhamos que se perde a oportunidade para desenhar mais um percurso temático centrado em Bowie não só interessante enquanto conjunto de olhares sobre o homem e o artista – mesmo que através de criações dos outros – como potencialmente capaz de se traduzir num fenómeno de bilheteira para o(s) museu(s) que eventualmente a organizasse.

Há, mesmo assim, uma oportunidade para poder contemplar este acervo. Desde ontem, mas durante um curto período (até 9 de agosto), estas obras reunidas por Bowie estão em exposição na Sotheby’s (em George Street, em Londres). Seguem-se curtas mostras destas mesmas peças em Los Angeles (20 e 21 de setembro), Nova Iorque (26 a 29 de setembro) e Hong Kong (12 a 15 de outubro), com nova temporada londrina a 1 de novembro, que culminará com o leilão, agendado para os dias 10 e 11 desse mês. O catálogo deste leilão estará disponível apenas em outubro.

Este leilão levará assim ao mercado 380 obras reunidas por David Bowie, entre as quais está bem representada a arte contemporânea britânica, com trabalhos de nomes como os de Damien Hirst, Frank Auerbach, Graham Sutherland ou Henry Moore. A coleção tem também um foco importante dentro dos universos da chamada “arte bruta”, incluindo, por exemplo, peças criadas por doentes psiquiátricos de Viena. E integra ainda exemplos de obras dos surrealistas, peças do chamado “grupo de Memphis”, mobiliário de Ettore Sottsass, objetos de design e trabalhos de artistas africanos contemporâneos. Entre as peças de nomes mais célebres conta-se Air Power, pintura de 1984 de Jean Michel Basquiat, para os quais os leiloeiros esperam que se obtenham valores de venda na ordem dos três a quatro milhões de euros. Bowie tinha adquirido este quadro em 1995 num leilão na Christie’s, por ele pagando perto de 109 mil euros. No ano seguinte a relação entre o músico e o pintor ganharia um sentido mais público quando Bowie foi chamado por Julian Schnabel para vestir a pele de Andy Warhol no biopic Basquiat.

Todo este era um conjunto desconhecido, uma vez que se sabia que Bowie era colecionador – frequentava leilões de arte contemporânea com regularidade – mas não era publicamente sabido o que, afinal, estaria a comprar.

Foi já notado (e com razão) que raramente um leilão de arte contemporânea conhece este mediatismo e tão alargado programa de exposições. O facto de se tratar da coleção de um dos mais importantes artistas do nosso tempo explica o entusiasmo que está a gerar. Mas convém deixar claro que o acervo a leiloar não se tratava de um mero capricho de um músico de sucesso. David Bowie era um colecionador atento e escrevia ocasionalmente artigos na Modern Painters, a cujo conselho editorial pertencia.

O calendário agendado não dá assim margem para que destas peças pudesse nascer uma relação mais profunda e consequente. Se há artista do nosso tempo cuja obra e coleção privada poderia alimentar uma grande exposição ou mesmo um museu, ele era David Bowie. Não é a primeira vez que aqueles que têm a seu cargo os acervos de quem nos deixou agem sem ter esses outros horizontes de possibilidades pela sua frente. A Sotheby’s espera resultados francamente bons para este leilão. Mas a coleção ficará votada ao silêncio enquanto corpo conjunto capaz de se relacionar com aquele que a reuniu. As peças terão o seu valor como criações de quem as assinou. Mas teriam valor acrescentado se integradas numa narrativa que passasse por quem as juntou. E uma narrativa com Bowie como centro de gravidade não seria coisa a passar longe das atenções.

P.S. - Podem ver aqui imagens de algumas das obras deste leilão.

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